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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

O lado oculto da Crise dos Mísseis de Cuba, em 1962

 Myasishchev 3M - 3

Myasishchev 3M

Por Sérgio Santana*

Apesar de vários incidentes preocupantes durante a Guerra Fria, o mundo nunca esteve tão perto do Armagedom nuclear quanto durante a crise dos mísseis de Cuba em 1962, quando os Estados Unidos e a União Soviética se confrontaram como nunca. A Operação Anadyr, como os soviéticos a chamavam, consistiu no envio de mísseis balísticos e de bombardeiros táticos para a ilha caribenha de Cuba, após o fracasso da invasão da Baía dos Porcos no ano anterior, conduzida por exilados cubanos apoiados pelo governo dos EUA.

Contexto

A história registra a primeira evidência visual de uma presença militar soviética em larga escala no solo cubano em 14 de outubro de 1962, quando o então major Rudolf Anderson, pilotando uma aeronave Lockheed U-2 operada pela Agência Central de Inteligência (CIA), fotografou mísseis balísticos de médio alcance R-12 “Dvina” (codificado SS-4 Sandal pela OTAN).

Mísseis balísticos soviéticos fotografados em Cuba por um U-2

Publicamente, isso não apenas desencadeou a chamada “Crise dos Mísseis de Cuba”, mas também uma reação em cadeia no Alto Comando das Forças Armadas norte-americanas, após as imagens serem analisadas por analistas da CIA no dia seguinte.

A gravidade das evidências encontradas nas fotos de Anderson levou o presidente John Fitzgerald Kennedy a apresentá-las em 16 de novembro. Vinte e quatro horas depois, uma reunião convocada pelo então secretário de Defesa, Robert McNamara, com os secretários das Forças Armadas dos EUA e os comandantes do Estado-Maior Conjunto resultou em um imediato e maciço desdobramento de aeronaves: bombardeiros estratégicos foram transferidos de suas bases habituais para 32 aeródromos militares ou civis mais próximos de Cuba. Isso incluiu 183 bombardeiros Boeing B-47 Stratojet que foram “ativados”, enquanto 66 B-52 “Stratofortress” permaneceram em alerta aéreo constante, parte de uma iniciativa lançada em 1960, chamada “Operação Chrome Dome”, que permitia ataques da USAF em território soviético com aviso prévio relativamente curto.

Quando as forças americanas foram elevadas ao nível de alerta DEFCON 3, decretado em 22 de outubro de 1962, a postura de alerta constante existente se encaixou naturalmente nesse nível.

Além dos já mencionados mísseis balísticos de médio alcance R-12 Dvina/SS-4 Sandal, que totalizavam 24 lançadores, os militares soviéticos também levaram 16 mísseis balísticos de médio alcance R-14 Chusovaya (SS-5 Skean) para Cuba. Partindo de Cuba, todos esses mísseis poderiam transportar ogivas nucleares e termonucleares com um rendimento entre 1 e 2,3 megatons, para alvos a até 4.500 quilômetros de distância, nos Estados Unidos continentais.

Reforçando a ameaça representada pelos mísseis estratégicos, havia ogivas nucleares táticas instaladas em 80 mísseis de defesa costeira FKR-1 Komet (OTAN SSC-2a Salish); mísseis Luna-2 (Frog-5) e seis bombas de queda livre 407N, a serem lançadas por seis bombardeiros Ilyushin Il-28N “Beagle”.

Ilyushin Il-28N “Beagle”

A ameaça oculta

Enquanto os soviéticos construíam sua presença militar em Cuba, sua força de bombardeiros estratégicos oferecia uma alternativa discreta à Operação Anadyr.

Com os bombardeiros estratégicos da USAF dispersos para bases mais próximas de Cuba, a intensificação dos voos da Operação Chrome Dome e a reação dos EUA à Operação Anadyr, a liderança soviética reagiu de forma semelhante.

Duas Divisões de Bombardeiros Pesados ​​e um Regimento de Bombardeiros Pesados ​​da Guarda estavam preparados para uma possível onda de ataques contra alvos da OTAN na Europa e nos Estados Unidos, caso a espiral de ameaças se transformasse em um conflito nuclear.

Ativada em Dolon (atual Cazaquistão) em 1957, a 79ª Divisão de Aviação de Bombardeiros Pesados era, na época da Crise dos Mísseis de Cuba, uma divisão do 8º Corpo Independente de Aviação de Bombardeiros Pesados, composta por dois regimentos: o 1023º e o 1226º, ambos operando Tupolev Tu-95 “Bear” estratégicos”. Considerando que cada regimento de aviação soviético geralmente é dividido em três esquadrões, cada um com 12 aeronaves, estima-se que haveria 72 Bears em Dolon.

Enquanto isso, a 201ª Divisão de Aviação de Bombardeiros Pesados ​​em Engels, Rússia, operava sob o comando do 43º Exército Aéreo Soviético de Aviação de Longo Alcance. Também compreendia dois regimentos: o 1096º e o 1230º, ambos operando bombardeiros Myasishchev 3M (OTAN Bison-B). Pelo menos um dos esquadrões do 1230º operaria aeronaves-tanque baseadas no Bison-B.

Myasishchev 3M (OTAN Bison-B)

Outra unidade mobilizada para a operação, então envolta em segredo, era o 184º Regimento de Guarda de Bombardeiros Pesados. Fundado em 1939 em Priluki (atual Ucrânia), seu terceiro esquadrão realizava tarefas de guerra eletrônica com Tupolev Tu-16P (OTAN Badger-J), 145 dos quais foram construídos como plataformas de interferência eletrônica de longo alcance contra as defesas aéreas da OTAN.

Para atingir seus alvos e, simultaneamente, evitar que suas aeronaves fossem destruídas por um ataque preventivo contra suas bases, o Alto Comando Soviético de Aviação de Longo Alcance decidiu dispersar as unidades para aeródromos de desdobramento. O Bison-B e o avião-tanque convertido foram enviados para a Base Aérea de Siauliai, na então República Soviética da Lituânia, enquanto o avião Bear foi para a Base Aérea de Ukrainka, na Região Autônoma de Amur, no sudeste da Rússia.

O plano de ataque previa o uso dos bombardeiros Myasishchev 3M, apoiados por aviões-tanque, para atacar alvos da OTAN na Europa, enquanto os Tu-95 atacariam alvos no Alasca e nos Estados Unidos continentais. Em ambos os casos, suas tripulações dispunham das capacidades de interferência eletrônica do Badger-J.

Por outro lado, o Myasishchev 3M representava a segunda geração do bombardeiro M-4 anterior, que não tinha o alcance necessário para desempenhar a função pretendida de bombardeiro estratégico.

Com os motores Dobrynin RD-7 do M3, 25% mais eficientes em termos de combustível, apoiados por sua capacidade de reabastecimento em voo, ele podia voar aproximadamente 15.450 km com um único reabastecimento.

Voando em cruzeiro a 805 km/h, com velocidade máxima de 941 km/h em seu teto operacional de 12.192 metros, ele tinha uma tripulação de sete pessoas e era protegido por seis canhões AM-23 de 23 mm.

Tu-95

Em comparação, o Tu-95 era impulsionado por quatro motores turboélice Kuznetsov NK-12, o que lhe conferia uma velocidade máxima de 829 km/h, um teto operacional de pouco mais de 11.900 metros e um alcance sem reabastecimento de 13.200 km. Tinha uma tripulação de oito pessoas e o mesmo armamento defensivo do Bison-B.

Embora ambas as aeronaves pudessem transportar bombas convencionais de queda livre, essa situação específica exigia que ambos os bombardeiros fossem armados com bombas nucleares ou termonucleares de alta potência e queda livre. A maior delas era a RDS-37, com potência de 3 megatons.

Tanto o Bear quanto o Bison-B podiam transportar duas RDS-37; cada uma, dependendo da altitude de detonação, seria suficiente para destruir uma cidade, uma base militar ou uma zona industrial de médio porte.

O lançamento da arma teria sido o último de uma cadeia de eventos que seguiriam a ordem de decolagem. A preparação envolveria o abastecimento das aeronaves, o equipamento de armas nucleares armazenadas em um local remoto, longe da base aérea, e a transmissão das rotas, das coordenadas dos alvos e dos códigos de ativação das ogivas às tripulações. O tempo era essencial; mesmo um minuto poderia significar a diferença entre o sucesso e o fracasso de uma missão; portanto, a ordem de lançar as bombas só seria dada quando estivesse a caminho dos alvos.

Entre os bombardeiros soviéticos, estariam os Tupolev Tu-16P Badger-J, que tinham velocidade máxima de 1.000 km/h, alcance máximo de 5.800 km e teto operacional de 13.100 metros. No entanto, seu principal recurso era o bloqueador de guerra eletrônica de longo alcance SPS-55 “Buket-5”, projetado para impedir a identificação e o rastreamento pelas forças da OTAN.

Tupolev TU-16

Os “Buket-5” eram instalados no compartimento de bombas pressurizado dos TU-16P, e sua presença era externamente identificável por uma carenagem em formato quase de canoa que se projetava sobre a linha central da fuselagem. Em teoria, a partir de altitudes acima de 9.144 metros, um Tu-16P poderia proteger um grupo de ataque de várias aeronaves entrando em ação, por uma área de mais de 482 quilômetros. A operação do Buket-5 era automatizada; seu equipamento de detecção e análise controlava até seis transmissores de interferência independentes, cada um capaz de gerenciar uma ameaça específica. Ele podia criar uma interferência autoprotetora ou de ataque (esta última, projetada para bloquear o equipamento do inimigo); uma escolha feita automaticamente, conforme o ambiente radioeletrônico do momento.

Se a radiação emitida pelo radar adversário fosse fixa, o analisador do “Buket-5” determinaria sua frequência e sua potência de operação. Os transmissores de interferência eram então acionados na potência necessária em determinada frequência. A interferência continuaria por até 3 minutos antes de pausar para reanalisar o sinal de radar novamente.

Caso os radares da OTAN alterassem sua frequência de radiação, o “Buket-5” monitoraria automaticamente as mudanças e recalcularia sua defesa de acordo. O analisador analógico determinava quantos sinais chegavam dentro de uma determinada faixa de frequência e, se, por exemplo, cinco sinais viessem de cinco radares, cada um com uma frequência diferente, o “Buket-5” criava cinco “áreas de detecção” de interferência, determinadas pela magnitude da ameaça. Se, após a próxima análise, fosse determinado que dois ou mais radares estavam operando em frequências semelhantes ou sobrepostas (gerando, assim, interferência mútua), eles seriam neutralizados por meio de uma “barreira geral” – transmitindo sinais de radiofrequência para sobrecarregar os radares inimigos. Os radares restantes seriam combatidos por meio de interferência direcionada.

Breves reflexões

Os Tu-16P soviéticos teriam permitido que os bombardeiros 3M e Tu-95 penetrassem os vários níveis dos sistemas de defesa aérea do NORAD e da OTAN e atingissem seus alvos?

Em parte, talvez, considerando que nem mesmo Oleg Penkovski (1919-1963), oficial do GRU – a inteligência militar – responsável por repassar à CIA detalhes dos sistemas de armas soviéticos durante a crise, comunicou (ou se comunicou não foi tornado público) aos espiões ocidentais da existência deste, digamos, “Plano B”, cujas algumas aeronaves chegaram a decolar, mas foram ordenadas a voltar às suas bases.

Mas felizmente isso foi evitado por um acordo firmado em novembro de 1962: os soviéticos concordaram em retirar seus mísseis nucleares de Cuba e o governo dos EUA retirou seus mísseis nucleares de médio alcance Júpiter das bases na Turquia.■

O ‘outro’ Su-37: o ambicioso caça soviético que desapareceu com o fim da URSS

 Su-37

No turbulento início da década de 1990, quando a União Soviética se aproximava do colapso, a indústria aeronáutica do país ainda concebia projetos ousados. Entre eles estava um projeto pouco conhecido — e frequentemente confundido com o posterior demonstrador supermanobrável — designado Su-37 (também referido em alguns estudos como S-37), concebido como um caça multifunção modular capaz de substituir uma ampla gama de aeronaves táticas.

O projeto surgiu no contexto de uma profunda revisão doutrinária soviética no final da Guerra Fria. A ideia central era criar um único avião capaz de assumir funções tradicionalmente distribuídas entre vários modelos, incluindo:

  • o avião de ataque Su-25
  • caças táticos como MiG-21 e MiG-23
  • versões de exportação do MiG-21

Segundo estudos da época, a aeronave seria uma aeronave multifunção de nova geração, combinando ataque ao solo, defesa aérea limitada e missões de interdição — algo relativamente incomum nos projetos soviéticos clássicos, historicamente mais especializados.

A configuração aerodinâmica proposta também chamava a atenção: uma combinação delta-canard com fuselagem “area-ruled”, visando reduzir o arrasto transônico e melhorar o desempenho em altas velocidades.

Engenharia incomum para padrões soviéticos

Um dos aspectos mais curiosos do conceito era a preocupação com a logística e com a operação em bases existentes. O projeto previa pontas de asa dobráveis, permitindo que o avião ocupasse o mesmo espaço de hangar de caças de geometria variável e até do compacto MiG-21 — uma solução rara em projetos soviéticos da época.

Outro ponto avançado era a ênfase na redução da seção de radar (RCS) e no uso extensivo de materiais compostos na estrutura e no revestimento. Embora não fosse um avião furtivo no sentido moderno, o enfoque indicava uma mudança de mentalidade na indústria soviética, já sensível às tendências de baixa observabilidade que ganhavam força no Ocidente.

Desempenho projetado (configuração de 1992)

Dados divulgados para a configuração de referência do início dos anos 1990 indicavam uma aeronave relativamente leve para os padrões da linha Sukhoi:

  • Peso normal de decolagem (NTOW): 18,35 t
  • Peso máximo de decolagem (MTOW): 25,8 t
  • Combustível interno: 5,8 t
  • Carga normal: 1,96 t
  • Carga máxima: 8,42 t
  • Velocidade máxima: Mach 2,0
  • Alcance com carga normal: 2.400 km
  • Alcance máximo: 3.750 km
  • Teto operacional: 16–17 km

Esses números colocariam o projeto numa categoria intermediária entre caças leves e aeronaves de ataque dedicadas, reforçando a ideia de uma plataforma substituta “universal”.

Um produto do fim da Guerra Fria

O programa refletia uma tendência mais ampla observada no final dos anos 1980: a busca por aeronaves multifunção capazes de reduzir custos logísticos e simplificar frotas. A própria liderança soviética havia determinado estudos para um novo caça-bombardeiro multifunção destinado a substituir vários tipos em serviço no Pacto de Varsóvia.

Entretanto, o contexto político e econômico mudou rapidamente. A dissolução da União Soviética, em 1991, provocou uma crise financeira profunda na indústria de defesa russa, interrompendo inúmeros programas aeronáuticos promissores.■

Como o caça Gripen se sai contra o F-15, F-16, F-18, F-22, Rafale e Eurofighte

 Tiger Meet 2013 - Gripen - Rafales - Typhoon e Tornado - foto via Força Aérea Francesa

Exercício Tiger Meet 2013: Gripen, Rafales, Typhoon e Tornado. Foto via Força Aérea Francesa

Por Stefan Englund – ex-tenente de engenharia da Força Aérea Sueca (1986-1991)

Falando apenas sobre as versões operacionais, o Gripen não tem problemas em enfrentar qualquer um dos caças americanos F-18, F-16 ou F-15, sendo o F-22 o único caça americano operacional que pode dar ao Gripen algum problema substancial. Como o Gripen se posiciona contra os caças europeus?

Desconfio que caças como Typhoon e Rafale, dependendo do papel de um e de outro, tenham alguma vantagem, mas devem ser bastante semelhantes em geral. Olhando para os caças contra o Gripen, um a um, começando pelos americanos, os resultados de exercícios internacionais mostram uma imagem bastante clara. Abaixo, não abordarei o F-35 ou o Gripen E, uma vez que não estão operacionais e, portanto, qualquer comparação é pura especulação.

Contra o F-16, que mais se encontrou com o Gripen em exercícios, muitas vezes durante o Red Flag, mas também na Noruega, Tailândia e exercícios europeus. Mesmo com pilotos muito inexperientes do Gripen, com poucas horas de voo, o Gripen tem vantagem. O Gripen no Red Flag Alaska 2006 mostrou o quão superior ele pode ser, mesmo com o mínimo de apoio, com poucas pessoas e longe de casa. Os pilotos de Gripen ainda não tinham treinado com a sonda de reabastecimento aéreo (eram os primeiros Gripen C/D entregues), por isso foi uma grande aventura ir da Suécia ao Alasca e permanecer operacional em um nível muito elevado.

Gripen no Red Flag Alaska, em 2006

O Red Flag 2006 foi a estreia da Suécia com o Gripen nesse tipo de exercício. Com um apoio aéreo e por radar reduzido, o Gripens conectaram seus sistemas de data-links e agiram como um mini-AWACs, tendo a consciência do campo de batalha que, em alguns aspectos, era melhor que o oponente. Sem grande esforço evitando toda a defesa do solo, marcaram 10 kills no primeiro dia, incluindo um Typhoon. Sem perdas e eles permaneceram sem serem detectados, a suíte EW (Electronic Warfare) mostrou-se muito difícil de penetrar.

Um piloto do Gripen derrubou cinco F-16 Block 50+ durante combate aéreo no Red Flag Alaska. E os Gripens nunca perderam nenhum encontro aéreo ou falharam em seus objetivos de missão. Foi o único caça que realizou a maioria das surtidas planejadas, enquanto outros ficaram no chão esperando a meteorologia melhorar. A avaliação foi de que a capacidade dos Gripens precisava ser reavaliada. O Gripen pode ser favorecido com kill rate de até 15:1 contra o F-16. E com nenhum desrespeito aos outros pilotos de caça: com os papéis trocados, eles teriam a mesma pontuação.

Durante um exercício de combate com a Força Aérea Real Norueguesa, 3 Gripens suecos enfrentaram 5 caças F-16 da RNAF. O resultado foi 5-0, 5-0, 5-1 depois de terem voado 3 surtidas.

Gripen sueco, F-16 norueguês e F-18 finlandês

O F-16 tem um TWR (Thrust-to-weight Ratio – Razão empuxo-peso) mais alta que o Gripen, mas é preciso considerar o arrasto e a carga alar também. O Gripen tem um arrasto muito menor. E carga alar muito mais baixa. Ele pode atingir velocidades supersônicas em empuxo seco enquanto carrega um armamento completo de quatro AMRAAMs, dois Sidewinders e um tanque de combustível externo. Mesmo que o Gripen não tenha a TWR do F-16, ele pode quase igualá-lo na taxa de subida graças ao arrasto menor.

A diferença no papel pode não parecer muita coisa, mas, olhando para a eficácia do campo de batalha, é um mundo à parte. O Gripen é um caça moderno, de projeto mais recente que o F-16.

Exercícios com o F-18 não são tão comuns, mas ocorrem com mais frequência durante operações com a Força Aérea Finlandesa. Em BVR nem o F-16 e o F-18 chega perto, mas parece que o F-18 em um merge se sai muito bem em grandes altitudes, mas isso muda com a altitude decrescente e abaixo de 2.000 metros não é páreo para o Gripen. Não tenho pontuações, mas suspeito que o Gripen tenha pontuado um pouco menos contra o F-18 do que contra o F-16, dependendo da altitude, mas não com muito.

Gripen sueco e F-18 finlandês no Artic Challenge 2013 – foto Força Aérea Sueca

O avião que parece capaz de manter distância é o F-15. Os F-15 também têm a vantagem de poder desengajar se a situação for desfavorável.

O único encontro entre F-15 e Gripen que eu conheço foi durante o exercício Loyal Arrow na Suécia, no qual 3 caças F-15C da USAF foram interceptados por um único Gripen agindo como agressor. O resultado foi o abate de dois F-15 e um conseguiu escapar devido usando sua melhor razão empuxo-peso. Para a defesa dos F-15, eles estavam no quintal dos Gripens. O F-15 pode ficar de fora de um combate com um Gripen, mantendo-o à distância, usando BVR se eles puderem detectá-lo e evitando os Meteors do Gripen, mas não é uma estratégia sábia engajar.

O F-22 é o único caça que tem vantagem sobre o Gripen. Em relação a outros caças, o Gripen tem uma das pontuações mais altas contra o Raptor. Em comparação com o Typhoon, a diferença não é grande, mas o Raptor ainda está em vantagem. Por sua idade, o F-22 é um avião mais do que impressionante em muitos aspectos. O que afeta o Raptor negativamente nesse contexto é a idade do avião e a necessidade de atualização do conjunto de sensores para mantê-lo superior na arena de superioridade aérea.

Exercício Pitch Black 2014: Hornet, Super Hornet, Mirage 2000-9, Gripen, F-15 e F-16
F-22 Raptor

O F-22 é, no meu ponto de vista, o único avião que tem um potencial de atualização superior se ele fosse objeto de uma atualização equivalente ao Gripen E. Significando fuselagem semelhante, mas nova, interior e arquitetura completamente novos, suíte de sensores e aviônicos.

Observando a arquitetura usada no Gripen E, um custo de atualização do Raptor “NG” seria menor do que qualquer um pode imaginar e se tornaria um caça em potencial da 6ª Geração a um custo relativamente baixo. Provavelmente se tornaria mais ou menos intocável, que não é o caso do já existente. Não entenda mal, o F-22 é superior ou, como um piloto do Gripen disse no Red Flag 2013, “o F-22 funciona como anunciado”. Apenas é triste ver que o número desses aviões é limitado.

Contra o Rafale e o Typhoon, não tenho registros, mas o que sei é que os pilotos dos caças Typhoon chamavam o Gripen de “bucha de canhão” na chegada ao Red Flag Alaska, mas mudaram de ideia muito rapidamente e ficaram muito mais humildes depois de alguns combates.

Caça Saab Gripen C armado com mísseis Meteor e AMRAAM

Não há caças operacionais superiores ao Gripen, exceto o F-22. Mas o Gripen tem limites, é um avião pequeno e com isso possui radar menor, leva menos carga e combustível. Mas o baixo custo de voo, manutenção, acessibilidade e retorno superiores compensam muito isso.

O Gripen está entre os caças mais subestimados que voam hoje. Durante a campanha da Líbia foi usado inicialmente como recurso tático, mas logo depois foi atualizado como um recurso estratégico. Também na Líbia, nenhuma missão foi cancelada devido a problemas técnicos no Gripen. E não, ele não é invencível, apenas subestimado.

Então, acima, quando falo do Gripen, não apenas quero dizer o avião, mas como ele é conectado em rede, a fusão exclusiva de sensores que lhe confere uma consciência situacional superior no campo de batalha, flexibilidade, acessibilidade e outras habilidades. E ainda estou falando do Gripen C/D, única versão operacional. Não há caça, exceto o F-22, hoje operacional que seja superior ao Gripen em rede. E todos os que voaram contra ele sabem disso.

O Dassault Super Mirage 4000

 

Mirage 4000 - 9

Dassault Super Mirage 4000 com camuflagem de deserto e configurado para missão de interceptação com 6 mísseis Matra Magic

Por Alexandre Galante

O Super Mirage 4000 nasceu como um empreendimento privado da Dassault, basicamente um Mirage 2000 bimotor ampliado com canards.

Seria um interceptador e um caça-bombardeiro da classe de 20 toneladas, muito capaz e com grande potencial no mercado internacional, mas que acabou não entrando em produção por causa do preço elevado.

Seu projeto recebeu influência do avião de ataque Mirage F2 cancelado. O projeto do Super Mirage 4000 recebeu fundos da Arábia Saudita, mas perdeu a concorrência para o F-15 Eagle e o Tornado.

O protótipo voou no dia 9 de março de 1979 e bateu a barreira do som atingindo Mach 1.2. Equipado com dois motores Snecma M.53, o Super Mirage 4000 atingiu Mach 2.2 facilmente no seu sexto voo, em abril de 1979.

Para ser mais leve, o avião foi construído com uso extensivo de fibra de carbono e boro. O controle de voo era fly-by-wire, como no Mirage 2000.

Comparável ao F-15 e ao Su-27

O Super Mirage 4000 era comparável em tamanhoe performance ao F-15 Eagle dos Estados Unidos e foi projetado para ser um interceptador de longo alcance e um caça-bombardeiro capaz.

Em autonomia e razão de subida do Super Mirage 4000 também era comparável ao Sukhoi Su-27 Flanker.

A capacidade de armas chegava a 8.000 kg e na função de interceptador podia levar até 14 mísseis ar-ar.

A Dassault esperava que o Armée de l´air comprasse o Super Mirage 4000 para substituir os bombardeiros Mirage IV, mas a encomenda não se materializou.

O único protótipo acabou sendo usado como demonstrador de tecnologia para o sistema de controle de voo do Rafale.

 

Super Mirage 4000 decolando para o primeiro voo
Super Mirage 4000 e Mirage 2000
Super Mirage 4000 decolando para demonstração
Super Mirage 4000 em aproximação para o pouso com os freios aerodinâmicos abertos
Super Mirage 4000 recolhendo o trens de pouso logo após a decolagem
Super Mirage 4000 e Mirage 2000
Outro ângulo do Super Mirage 4000 configurado para missões ar-ar
Super Mirage 4000 e o protótipo do Rafale
Super Mirage 4000 com dois tanques alijáveis sob as asas
Super Mirage 4000 configurado como caça-bombardeiro
Super Mirage 4000 e o protótipo do Rafale armados como mísseis ar-ar
Super Mirage 4000 decola para demonstração com seus mísseis ar-ar
Super Mirage 4000 decola para demonstração com armas ar-ar, ar-solo, casulos e tanques suplementares

Super Mirage 4000 no museu de Le Bourget

Ele é a Luz do mundo sombrio, a porta de acesso à harmonia, o caminho seguro para a felicidade, o Pastor Misericordioso e compassivo, o Amigo de todos aqueles que não têm companhia, o Pão de vida e de sustentação da vida, o Sol que brilha na noite das paixões...

 Quando a França disse não ao F-15

Em 1976, o recém-introduzido F-15 Eagle representava o estado da arte da superioridade aérea ocidental. Naquele momento, os Estados Unidos chegaram a oferecer o caça à França e, por alguns dias, a aeronave voou ostentando cores francesas. O episódio, pouco conhecido fora dos círculos especializados, tornou-se um momento simbólico da política de autonomia estratégica de Paris. A decisão francesa de não adquirir o F-15 e investir em um projeto próprio acabaria moldando décadas da indústria aeronáutica europeia — mas o desfecho esteve longe de ser inevitável.

O contexto da época ajuda a entender por que houve uma real “janela de oportunidade” para o Eagle. A oferta americana surgiu logo após o cancelamento, em dezembro de 1975, do programa Avion de Combat du Futur (ACF) — também conhecido como Mirage G8A — interrompido por razões de custo. Quase simultaneamente, a Dassault apresentou ao presidente Valéry Giscard d’Estaing a proposta do Mirage 4000, que acabou não recebendo financiamento estatal. Com o ACF morto e o Mirage 4000 sem apoio político, a McDonnell Douglas percebeu, corretamente, que havia espaço para tentar vender o F-15 à França.

Naquele momento, a Força Aérea Francesa desejava fortemente uma célula pesada bimotora que pudesse dar origem a duas variantes principais: um caça de superioridade aérea e uma plataforma de ataque nuclear de longo alcance. Se o desenvolvimento doméstico fosse considerado financeiramente inviável no curto prazo, o F-15 surgiria como uma alternativa tecnicamente madura. Além disso, havia um argumento econômico relevante: no início dos anos 1980, estimava-se que o Mirage 4000 custaria cerca de US$ 40 milhões por unidade, enquanto o F-15 ficava em torno de US$ 26 milhões, o que representava uma diferença significativa.

Do ponto de vista tecnológico, o Eagle também oferecia vantagens imediatas. Seus sistemas aviônicos estavam mais maduros, enquanto a francesa Thomson-CSF enfrentava dificuldades no desenvolvimento do radar RDI que equiparia o Mirage 2000 e o próprio Mirage 4000. Não por acaso, os primeiros Mirage 2000C entraram em serviço com o radar RDM — originalmente destinado à exportação — devido aos atrasos do RDI.

Apesar desses fatores favoráveis ao caça americano, a janela política era estreita e se fechava rapidamente. Após o cancelamento do ACF, a própria Força Aérea percebeu que o Ministério da Defesa dificilmente financiaria a aquisição de uma aeronave pesada e cara, seja ela nacional ou importada. Em vez disso, os militares passaram a considerar um caminho alternativo. Em outubro de 1978, foi emitido um estudo preliminar para um caça bimotor menor, com asas delta e comandos fly-by-wire. Esse trabalho evoluiu para o programa ACT-92 em 1980, que foi essencialmente uma redução homotética do Mirage 4000, com entradas de ar e canards redesenhados — o embrião direto do futuro Rafale.

Dassault Super Mirage 4000 com camuflagem de deserto e configurado para missão de interceptação com 6 mísseis Matra Magic

Mesmo assim, a Dassault continuou apostando no Mirage 4000 a partir de 1976, na expectativa de que clientes do Oriente Médio — especialmente o Irã, o Iraque ou a Arábia Saudita — financiassem o programa e forçassem Paris a reconsiderar sua posição. O protótipo foi oferecido internacionalmente até 1987. Embora tenha despertado interesse saudita, acabou preterido em favor do Panavia Tornado no famoso acordo Al-Yamamah.

Paralelamente, a Marinha Francesa enfrentava seu próprio dilema. A aviação naval precisava urgentemente substituir seus envelhecidos F-8 Crusader, e o F/A-18 Hornet era praticamente o único caça moderno compatível com operações CATOBAR disponível no mercado — já que o F-14 era pesado demais para operar nos porta-aviões da classe Clemenceau. Em teoria, a McDonnell Douglas poderia até ter tentado um pacote combinado de F-15 para a Força Aérea e F/A-18 para a Marinha. Contudo, a realidade orçamentária francesa tornava esse cenário improvável.

A Marinha estava financeiramente pressionada por programas estratégicos prioritários, como os submarinos nucleares das classes Redoutable e Rubis, bem como pelo desenvolvimento dos futuros SSBNs da classe Triomphant. Sem recursos para um novo caça embarcado, os F-8 tiveram de permanecer em serviço por muito mais tempo do que o planejado — até 1999, quando se tornaram simplesmente inseguros para operar.

Esse atraso teve consequências diretas. Para preencher o vazio, o Rafale foi colocado em produção antecipada na versão padrão F1, inicialmente limitada em armamento ao canhão interno e aos mísseis R550 Magic II e MICA EM.

O Rafale sobrevoa o PA Foch

Visto em retrospectiva, o F-15 era mais barato e mais maduro tecnicamente no curto prazo. Ainda assim, a França manteve sua linha histórica de autonomia estratégica. A escolha foi arriscada e, durante anos, mais onerosa. Porém, preservou a capacidade nacional de projetar caças de alto desempenho, manteve a Dassault como integradora de ponta e garantiu liberdade de exportação e de emprego operacional.

O episódio de 1976 permanece um estudo clássico de decisão estratégica em defesa. Ele mostra como fatores políticos, industriais e de soberania podem prevalecer mesmo quando uma solução estrangeira parece, à primeira vista, mais barata e mais pronta. Décadas depois, com o Rafale consolidado no mercado internacional, a aposta francesa continua sendo vista — por muitos — como um risco calculado que acabou por moldar o futuro da aviação de combate europeia.■

Rafales com mísseis nucleares ASMP