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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

História Informal da Aviação de Caça: ‘Ano do F-5’

 

ANO DO F-5
(História 31-1)
 

Por T.Cel.Av.R.R. Gilberto Pedrosa Schittini

Em 1971/72, os T/TF-33 do Grupo de Caça foram distribuídos para Canoas (CO) e Fortaleza (FZ) e o Grupo de Caça ficou com a tarefa de avaliar e qualificar o AT-26 Xavante na FAB. Esta era uma atividade transitória, enquanto uma solução definitiva era implementada, pois a introdução de uma nova aeronave de caça já estava em andamento, com a compra do Mirage e a criação da 1aAla de Defesa Aérea (1o ALADA) em Anápolis.

Enquanto nos divertíamos voando o Xavante em 72, 73 e 74 – bons tempos – cabeças mais antigas e competentes (sic…) decidiam o futuro da caça. Foi assim que, não sei se no final de 72 ou início de 73, compramos o F-5E Tiger II. Como disse, as coisas estavam acontecendo e nós estávamos bem no miolo da encrenca.

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AT-26 Xavante

No final de 73 e em todo ano 74 o Grupo teve inúmeras tarefas, importantes e urgentes, a executar, dentre elas destacamos:

  • Entregar os Xavantes para o 1o/4o em Fortaleza e para o CATRE em Natal;
  • Selecionar e aprimorar os conhecimentos em inglês dos pilotos a serem treinados nos Estados Unidos;
  • Desenvolver um programa de treinamento para os mecânicos do F-5 B/E;
  • Adequar as instalações do Grupo para receber o F-5;
  • Planejar a implantação do F-5 na Força Aérea.

Em 1975 deveríamos fazer o translado das aeronaves e iniciar a operação.
O que começou em 1974 como uma adequação das instalações do Grupo no hangar do Zepelin,(1) terminou com uma completa mudança para novas instalações. O hangar do Esquadrão de Suprimento e Manutenção passaria a ser o hangar de manutenção dos F-5. As instalações do Grupo e dos Esquadrões seriam totalmente novas, assim como o Centro de Treinamento e o Suprimento Técnico.

Também foi decidido iniciar-se a adequação da pista de Santa Cruz (SC) para a operação de aeronaves supersônicas. Era sem sombra de dúvida uma necessidade. Até mesmo para o TF-33 a pista, em algumas ocasiões, era pequena. Para a operação do Mirage e do F-5 era realmente necessário um piso mais resistente e muitos metros de pista a mais.

Com todas estas atividades em andamento é fácil imaginar o nível de agitação da rotina diária do Grupo e da Base Aérea de Santa Cruz (BASC). Por estas razões tenho certeza que todos que serviram em Santa Cruz nesse período, e estiveram envolvidos com a implantação do F-5, têm muitas lembranças do ano de 1975.

Em cada atividade em andamento há matéria suficiente para muita estória, certamente se alguém dentre os protagonistas resolver contar, a história do Grupo de Caça e da Caça seria muito enriquecida. Nossa proposta, entretanto, é apenas relembrar os eventos mais coloridos do translado da terceira esquadrilha de F-5E para o Brasil, incluindo os preparativos para a missão.

A terceira esquadrilha de F-5E foi também a primeira esquadrilha de “puros sangue”, como nós nos denominávamos.

Tínhamos três tipos de pilotos de F-5 no Grupo, nesta época. Havia os “Willie Boys”, ou seja aqueles que haviam concluído o curso completo de transição operacional no 425o “Tactical Fighter Squadron” (TFS)(2) na Base Aérea de Williams no Estado do Arizona. Havia também os “Half Willie Boys” que haviam concluído apenas o treinamento mínimo requerido para o translado do F-5 no 425oTFS e nós, que fomos treinados pelos “Willie Boys” mais um instrutor da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) no Brasil.

F-5B do 425o. Tactical Fighter Squadron" (TFS)
F-5B do 425o. Tactical Fighter Squadron” (TFS)

Especificamente, o Passos e eu tivemos como instrutor o Captain Kohen, devido a nossa proficiência em inglês. O Capt. Kohen era recém chegado do Vietnã sendo, portanto, instrutor novo de F-5. Tenho certeza que, devido as condições de vôo que nos foram impostas, ele correu tanto risco aqui quanto no Vietnã. Muitas vezes ele deixou transparecer que sabia disso. Por esta razão, meu treinamento e do Passos foi muito bom pois o gringo era “unforgiving”.(3)

Queria provar a todo custo que éramos incompetentes como pilotos, pois como “administradores” de uma Força Aérea isto era por demais evidente. Esta disputa entre ele e nós, quase nos matou. Já já eu conto o evento.

Para transformar uma situação complexa num caos total, o Comando Aerotático (COMAT) para os mais novos, tomou uma série de decisões realmente “brilhantes”.

Em primeiro lugar, decidiu que todos os pilotos de caça, não importando o Esquadrão de origem e se ia ou não operar o F-5 nos anos vindouros, deveria participar do translado. Esta decisão multiplicou, como diria um matemático, por “n” sendo n>>0 (muito maior que zero) o trabalho com preparação de pilotos no Grupo. Esta preparação incluía curso de inglês, curso de tráfego aéreo internacional, pré-solo, instrumento, formatura de F-5 e etc…

A decisão garantiu que toda esquadrilha fosse composta por um grupo de pilotos inexperientes no F-5E e no tipo de missão. Realmente “an outstanding decision” (sic…)(4) sob o ponto de vista operacional, mas muito “bacana” (pobre Grupo de Caça) pois proporcionou diária fora de sede e passeio para muita gente.

Em segundo lugar, em vez de permitir que o Grupo se deslocasse para Anápolis para executar os vôos de treinamento naquela localidade, uma vez que a pista em SC estava em obras, o COMAT nos obrigou a operar partindo do Galeão.(5) O pessoal do Comando Aerotático não queria depender do Comando de Defesa Aérea (COMDA) para cumprir sua missão.

Para jogar gasolina no fogo e transformar o caos em inferno a Diretoria de Eletrônica e Proteção ao Vôo (DEPV), hoje Departamento do Controle do Espaço Aéreo (DECEA), baniu o F-5 dos céus do Rio de Janeiro e dificultou, o máximo que pode, a operação no Galeão. Nos foram concedidos “slots”(6) de decolagem e um atraso superior a três minutos cancelava o vôo.

Treinamentos de toque e arremetida e procedimentos por instrumento eram proibidos no Galeão, só nos foi permitido treinar toque e arremetida na “pistinha” de Guaratiguetá (GW) e um procedimento VOR(7) em São José dos Campos.

Estas decisões brilhantes nos custaram dois F-5 e um piloto, como contaremos a seguir e, pasmem, ninguém foi responsabilizado.

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Neste campo de batalha começamos as nossas operações para implantar o F-5 na Força Aérea Brasileira. Evidentemente era necessário, antes de mais nada, trazê-los para o Brasil.

Nem tudo era ruim ou negativo no cenário. A melhor parte, posso afirmar com segurança, eram os pilotos envolvidos na operação. Por sorte, acaso ou obra divina, a maioria dos pilotos de caça em atividade no início dos anos 70 era de lutadores acostumados com a adversidade.

Muitos tinham realmente lutado para permanecer na caça, quando outros julgaram que o bom senso determinava que o melhor para si e para a carreira era ir voar em outras “aviações”.(8) Daí a expressão corriqueira, na época, “desgraça pouca é bobagem, quanto mais encrenca melhor”.

Comecei o treinamento do F-5B(9) tendo como instrutor o Capt. Kohen, não me recordo como se escreve corretamente seu nome mas pelo som me parece correto. Como expliquei ele estava recém chegado do seu “tour” no Vietnã onde havia operado o F-4. Sempre que tinha uma oportunidade nos lembrava disso, não sei se o fazia conscientemente com algum objetivo específico além de enriquecer seus argumentos.

Entretanto, com ou sem ilustrações oriundas do sudeste da Ásia, suas observações eram sempre bem acolhidas como tínhamos aprendido a fazer na Academia da Força Aérea (AFA) e no 1o /4o em FZ. Ele próprio havia passado por um período de re-doutrinamento, e isto se refletia claramente no seu extremo rigor com a precisão de pilotagem.

Nada de novo para nós. Especificamente o Zé Mourão e o Catraca (Montgomery) haviam levado a nossa paciência ao extremo no curso de caça pelo fanatismo de ambos pela precisão nas manobras do programa de treinamento.

Uma missão típica incluía a decolagem do Galeão, um procedimento de subida por instrumentos até a vertical de Santa Cruz e deslocamento visual para a área de treinamento sobre Resende e o Sul de Minas. O treinamento de toque e arremetida era feito em Guaratinguetá, finalizando com deslocamento segundo regras de vôo por instrumentos para o Galeão, via procedimento iniciado na vertical de Piraí, para execução da antiga “Descida Hotel”.(10)

O pouso poderia ser feito a partir da aproximação ILS(11) ou, se o tráfego permitisse, executando um pilofe (12) para a pista 14. (13)Raramente era necessário arremeter para pouso visual na pista 32, para a qual não havia um procedimento para aproximação por instrumentos.

O tempo de vôo era de 01:20 hr. No pouso final o combustível era normalmente apenas suficiente para uma arremetida visual para um trafego curto.(14) Qualquer perturbação na sequência das manobras causava prejuízo para a missão podendo provocar um pouso final com combustível extremamente curto.

Os vôos de instrução transcorriam normalmente e nós íamos nos adaptando e aprendendo os truques da pilotagem do F-5B. As novidades, além do vôo supersônico, eram as novas preocupações com ângulo de ataque(15) e aprender a conviver com o comportamento típico de aeronaves supersônicas a baixa velocidade e novos termos como “burbs”, “buffets”(16) e etc…

F-5B 4802 1º GpAvCa, SC, 22abr90 - Camazano
F-5B 4802 1º GpAvCa, SC, 22abr90 – Camazano

A operação em Guaratinguetá apresentava algumas características interessantes, que merecem comentário específico. A pista era, e ainda é, pequena para operação do F-5. Ainda pior para operação de treinamento, mesmo considerando que não havia “novinho” sendo treinado.

A situação era agravada pelos inúmeros obstáculos fixos no terreno e os voadores nas redondezas do aeródromo. Como sempre acontece nas redondezas das nossas Bases, os urubus se concentravam em grande quantidade ao redor da pista, principalmente no trecho da subida para a perna do vento, quando executando um tráfego curto.

Os circuitos eram feitos sempre para a pista no sentido da serra para a cidade, não importando a condição do vento, pois os obstáculos existentes para aproximação final sobre a cidade eram um grande perigo. Assim sendo, várias aproximações e pouso foram feitos com vento de cauda de até 15 nós.(17)

Evidentemente, somente executávamos toque e arremetida; um pouso com parada completa, em qualquer circunstância, estava fora de cogitação. Quando o vento estava forte de cauda o uso do “afterburner“(18) na arremetida era comum.

Passar perto de urubus no circuito de pouso era normal. Certo vôo, após arremetermos subindo para a perna do vento, atropelamos um. O impacto foi logo atras da porta do trem do nariz. Com a fleuma que a situação recomendava relatei ao Kohen: “We’ve hit a buzzard”(19) e ele retrucou: “It sounded like a 35” (20) fazendo comparação com o calibre da antiaérea usada pelos vietcongs.

Eu percebi o que me pareceu uma esnobada e complementei: “Yeah, it probably does, but it was just a buzzard, one of this black birds around us, and we better go home and have a look”.(21)

Julgo o Capt. Kohen como um bom instrutor e acho que tive sorte em ter voado com ele. Um evento interessante oriundo da competição “Gringo x Cucaracha”, devido a impressão que eu tinha de que ele sempre estava nos esnobando, agravado pela minha total inabilidade de perder um “round”, somado a um pequeno erro de inglês, merece ser contado, pois quase teve consequências graves.

O gringo era exigente, queria um circuito de pouso impecável, como deve ser, diga-se de passagem. Velocidades corretas, inclinações, g’s(22) e etc, tudo “by the book” (23) como fazem os pilotos na guerra. Eu não queria deixa-lo pensar que, só por não termos ido à guerra, não faríamos as coisas direito.

Numa certa perna base(24) após um pilofe caprichado ele me disse: “Schittini, push the stick”. (25) Parecia-me que o início da curva estava correto, havia um ventinho nos empurrando para cima da pista, portanto, a inclinação e o fator de carga (26) me pareciam “ok”, pois eu já estava apertando a curva, não havia necessidade de “puxar” o manche. (27)

A armadilha das línguas estava armada. O gringo queria que eu aliviasse a curva e eu, confundindo “push” com puxe, entendendo que ele queria que a curva fosse mais apertada, apesar de julgar que a curva estava boa. Entretanto, não estava disposto a escutar, no “debriefing”,(28) o gringo me explicar como se poderia perceber como e quando o F-5 estava na sua melhor performance de curva, e blá blá blá… como fazer a perna base na melhor performance.

F-5E_1GAVCA

Consequentemente… apertei a curva. O avião me pareceu não gostar muito. Lá de trás, veio novamente com um pouco mais de ênfase: “Schittini, push the stick”. Eu pensei: “Gringo maluco, mas se ele pensa que vou arregar, está enganado”. O avião foi bem mais enfático do que o gringo, começou a gemer e a sacudir levemente as asas.

Definitivamente, estávamos fazendo uma curva apertada, pelo “book” eu sabia que sacudir as asas (wing rock) era sintoma de pré-estol,(29) mas aquele gringo não ia me dizer, no “debriefing”, que a curva tinha sido “xoxó”. (30) Portanto, se ele queria uma perna base no pré-estol ele ia ter uma. Foi quando, lá de trás veio uma instrução, onde se podia perceber uma pitada de desespero: “Stick forward, stick forward”. (31)

O gringo tinha mais inteligência do que eu bom senso e notou o erro que eu estava fazendo, pois casos de confusões com “push” & “pull” eram contados diariamente.

A cabine dianteira do F-5B ficou, subitamente, desconfortavelmente “hot”.(31) O máximo que pude dizer foi: “Ups, roger”. (32) Nada mais foi dito e/ou comentado, nem mesmo no debriefing. Acho que me tornei uma pessoa um pouquinho melhor após o evento, no futuro seria um pouco mais humilde em situações semelhantes.

Nos dias subsequentes de treinamento de toque e arremetida em “Guará”, tivemos mais um incidente devido a impacto com urubu, acho que foi o Silva Junior (Chicão) quem abalroou o bruto. Finalmente, aquilo que parecia que ia acontecer a qualquer momento, aconteceu: perdemos um avião devido a impacto com um urubu.

Na subida para a perna do vento(33) o Maj. Areal e o Maj. Gildo bateram num urubu que desta vez entrou pelo parabrisa e atingiu a face direita do Maj. Areal causando-lhe ferimentos relevantes.

Momentaneamente cego e tonto sem entender claramente o que se passava o Areba, como o Maj. Areal era conhecido na “baixa canalha”, optou pela ejeção. Com toda aquela confusão acontecendo lá na frente, o Gildo, ao ver todo o fogaréu da cadeira de ejeção do Areal causado pela ejeção, não perdeu tempo e também “se mandou”. O avião ainda voou sem pilotos por algum tempo vindo a cair no terreno da Escola(34) . Menos mal pois caiu em terreno da FAB.

Depois deste acidente pensei que seríamos autorizados a nos deslocar para Anápolis, pois nossa vida no Rio estava realmente um inferno. Estávamos meio que “acampados” tanto em SC quanto no Galeão.

Rapidamente o número de F-5B’s chegou a 6 e depois 5, porém, devido ao baixíssimo nível de estoque de peças, tínhamos apenas um ou dois aviões disponíveis para vôo, mesmo usando a prática consagrada da “permuta controlada de peças” (canibalização(35) era proibido; nem pensar).

Os pilotos que estavam voando, como era o meu caso, faziam um deslocamento SC-GL, pelo menos uma vez por dia e muitas vezes o vôo era abortado, devido a falta de avião ou devido aos empecilhos colocados pela DEPV.

Painel do F-5E 4863 em 2002 - Foto 3 Poder Aéreo - Nunão
Painel do F-5E 4863 em 2002 – Foto Nunão

Os problemas de administração do nosso suprimento eram inúmeros, pois a Diretoria do Material (DIRMA), o Depósito de Aeronáutica do Rio de Janeiro (DARJ), o Parque Material Aeronáutico de São Paulo (Campo de Marte) e a Comissão de Recebimento (COMFIREM) em Los Angeles, cada um tinha um apito diferente e a nossa necessidade era ainda uma outra. Dá vontade de chorar só de lembrar, pois eu era o Chefe do Suprimento do Grupo. Muitos dos meus cabelos brancos surgiram, precocemente, nesta época.

Algumas vezes estive muito perto de ser preso, devido aos artifícios para conseguir as peças para manter as aeronaves voando. Nesta época eu era um Tenente meio atrevido e acreditava ser mais eficiente tentar justificar e pedir desculpas do que pedir autorização, o que me forçou a conviver com o perigo. Felizmente meu Anjo da Guarda me ajudou e terminei bem minha tarefa.

Com a queda do avião do Areal, parecia que até o menos inteligente envolvido no processo decisório seria convencido de que aquela operação não poderia continuar. Obviamente seria muito melhor concentrar todos os meios em Anápolis e conduzir todas as operações a partir daquela Base, onde não haveriam os problemas de pista, de tráfego aéreo, de Avenida Brasil e etc… Enfim, seria como sair do inferno para entrar no paraíso.

Infelizmente isto não aconteceu. O orgulho do COMAT prevaleceu. Não podíamos depender do COMDA. O orgulho do pessoal do COMAT era mais importante do que a perda de aviões ou, eventualmente, de pilotos.

Desta forma, aos trancos e barrancos, concluí as seis horas para ir a cheque. Fiz o meu cheque com o Quírico, “Willie Boy” legítimo. O único detalhe que me recordo do vôo de cheque foi que o instrutor me chamou a atenção por executar parte do táxi para a decolagem com motores defasados de 0,5 % de RPM.(36) Até hoje, sempre que posso, encho a paciência do Quírico por este fato.

O vôo solo teve a peculiaridade de ser também o meu primeiro vôo de formatura solo. Nossa situação de material era realmente muito precária e, normalmente, os poucos aviões disponíveis não estavam completamente equipados (ANCE no jargão militar e na MEL no jargão dos pilotos civis).(37) Este era o caso do F-5B do meu primeiro vôo solo: o ADF (38) estava em pane.

Fiz o briefing do vôo com o Cap. Lazzarini, que era o Oficial de Operações do Esquadrão. O tempo no Galeão (SBGL) era 20 KM NIL 8SC600(39) (lembram-se do QAM? Hoje seria um METAR…). (40) Enfim o tempo era bom, mas exigia uma descida por instrumentos. Nada de mais, pois este era o normal do vôo, “any-way”. (41)Eu deveria fazer a Subida 11,(42) ir para a vertical de SC e depois ir para a área Resende para as manobras. Em seguida voar até “Guará” para os toques e arremetidas, voltar para a vertical de Piraí, fazer a descida “Hotel” com aproximação final ILS no Galeão e pouso final. “Piece of cake”. (43)

Não haveria problema para executar os procedimentos por instrumentos para os quais seria necessário o ADF, pois o F-5B estava equipado com DME.(44) Portanto bastava usar a distância como referência para saber a passagem sobre Nova Iguaçu, por exemplo, na Descida Hotel.

Isto posto, isto feito. Aconteceu que, ao abandonar a vertical de SC no topo, tendo voado IMC(45) até 18.000 ft (46) para iniciar as acrobacias, o indicador de atitude passou a indicar uma atitude incorreta. Voei algum tempo nivelado e a situação voltou ao normal.

Pensei estar sendo excessivamente cauteloso e reiniciei as acrobacias. Após um looping(47) , um oito cubano (48) normal e um reverso e tuneau vertical (49) , o indicador de atitude (50) ficou completamente inutilizável e não voltou mais ao normal.

Em contato com Operações na frequência tática fiquei sabendo que o Hortênsio ainda estava em vôo, executando também seu primeiro vôo solo. Marcamos um “rendez vous”(51) na vertical de Piraí, onde nos reunimos com facilidade.

O Hortênsio me trouxe para baixo, para um pouso quase na ala(52) na pista 14 do Galeão. Infelizmente, o Lazzarini considerou que eu tinha feito uma boa parte da missão e não me deixou repeti-la. Assim não consegui adicionar uma hora extra ao meu total de 8 horas de F-5, sendo considerado pronto para fazer o translado de um F-5E para o Brasil, conforme planejado.

Na realidade, estava prevista a execução de algumas horas de F-5E, antes de estarmos liberados para nossa missão. Infelizmente o translado da primeira leva de F-5E estava atrasado e, para manter o cronograma de recebimento das aeronaves, nós partiríamos para nossa missão tendo ou não jamais visto um F-5E. Afinal de contas era só a versão monoposto do F-5B, no qual já éramos “doutores”. A Esquadrilha prevista era:

  • Maj. Luzardo – Comandante
  • Cap. Sergio Martins – Operações
  • Ten. Zorron – Material
  • Ten. Passos – Pessoal
  • Ten. Schittini – Auxiliar de Operações
  • Ten. Hortênsio – Auxiliar do Material

Transcorria o mês de Julho de 1975, e o primeiro semestre tinha sido, na melhor das hipóteses, horrível. Entretanto, nós não sabíamos, coisas piores ainda iriam acontecer. Afinal de contas, nosso lema era “encrenca pouca é besteira”. Nas conversas de sala de briefing sempre alguém dizia que, “se as coisas continuarem nesta batida, ainda vamos perder mais aviões e alguém vai pular o muro”.

Acho que até os mais novos estão familiarizados com a expressão “pular o muro”. Outra expressão que era corriqueiramente repetida, e que significava a mesma coisa, era que nós estávamos vivendo dias de “muro baixo” e que todos deviam manter “um olho no padre e outro na missa”.

Infelizmente, estas palavras ditas na brincadeira iriam se concretizar.

Não me lembro bem das datas, mas nossa partida para os USA para nossa missão estava prevista para o dia seguinte ao da chegada, no Galeão, da primeira esquadrilha de F-5E. Eu tinha um problemão nas mãos pois nós tínhamos apenas material, mal e porcamente, para um “kit” de translado, portando meu pessoal teria 24 horas para receber o “kit”, conferi-lo e preparar todos os documentos de recebimento, dar baixa do material pertinente, preparar um novo kit e embarcá-lo no C-130 (Hércules).

Além disso tinha que me preparar para a missão tratando dos assuntos de Operações referentes à minha esquadrilha. Felizmente meus problemas pessoais eram poucos, pois ainda era solteiro e morava na Base. Nos anos de 73 e 74 eu dividira um apê em Copacabana com o Sandim e o Conrado mas, com as confusões do final de 74, tivera o bom senso de voltar para a Base.

Para complicar ainda mais, um dos F-5E da Esquadrilha que chegava teve uma pane de motor em Zandery (Suriname, Capital da Guiana Holandeza), um dos locais de pouso no caminho, requerendo troca do motor. Obviamente que não possuíamos um motor reserva, e assim sendo, em paralelo com a preparação da minha missão, deveríamos retirar um motor dos aviões que chegavam e preparar um “kit” de troca de motor, exaurindo ainda mais nossos parcos suprimentos, e embarcar tudo num outro C-130, ou um C-115 (Búfalo), que sairia na missão de socorro no mesmo dia seguinte.

Juntamos todo o pessoal do material e fizemos um cronograma de todas as atividades minuto a minuto, desde o momento que os aviões estacionassem até o momento da saída do Hércules, assim as possibilidades de problemas eram minimizadas. Permito-me um comentário: a equipe do Material do Grupo de Caça naqueles tempos, sob a liderança do Maj. Areal, era de primeira linha.

Tudo preparado, bastava então esperar os aviões e “cair de pau” no serviço assim que eles fossem liberados. A chegada na Base Aérea do Galeão seria feita com toda pompa e circunstância que a ocasião merecia, com banda de música, familiares, bandeirinhas e etc…

O dia amanheceu com uma meteorologia típica do inverno daqueles tempos ou seja: nevoeiro no Galeão. Previsão de abertura lá pela metade da manhã. “No sweat” como diriam os gringos. A última perna da viagem era Anápolis – Galeão, cerca de uma hora de vôo, portanto bastava ajustar o horário da decolagem e eles chegariam com o aeródromo aberto.

F-5E 4851 REVO 1978

Como estavam previstas festividades eles iriam tentar manter-se o mais próximo possível do programa. Na Esquadrilha estavam o Cap. Tacariju, Cap. Berto e Cap. João Bosco. O T.Cel. Rubens, Comandante da Esquadrilha e do Grupo de Caça, era quem tinha ficado para trás em pane.

Cheguei no Galeão na madruga e fiquei pela pista conferindo os preparativos e esperando pelos aviões. O nevoeiro não estava tão ruim como parecia e a pista começou a abrir cedo. Assim que tive a notícia que os aviões estavam chegando, fui para o estacionamento a tempo de ver um F-5E arremetendo do procedimento da pista 14 e iniciar as manobras para um pouso na pista 32.

Como eram três aviões que, certamente, tentariam chegar juntos ao estacionamento para as apresentações e as festividades, resolvi dar uma chegada até o hangar para uma última olhada nos preparativos para os serviços e dar uma “animada no pessoal”. Quando finalmente cheguei ao estacionamento, dois aviões já estavam estacionados e com o canopi(53) aberto.

O primeiro pensamento que me veio à cabeça, ao ver os F-5E, foi de que finalmente o Grupo de Caça tinha novamente um avião de caça. Um avião um pouco narigudo mas definitivamente com um aspecto de guerreiro.

O Berto já estava no chão sendo abraçado pelo “bandão” presente e o Taca estava descendo da escada. Dirigi-me para o Taca pois o Berto já estava muito ocupado. Quando o Taca me olhou era óbvio, pela sua expressão, que havia algo muito errado. Alguém que estava por perto, não me lembro quem, fez a pergunta que já estava na “ponta da língua”.

-“Oi Taca tudo bem…? Alguma coisa errada…?

O Tacariju tinha mania de misterioso, mas desta vez ele estava genuinamente muito preocupado quando respondeu:

-Eeeh o Bosco estava entre nós, não pousou e sumiu do rádio.

Parece-me que a maioria dos presentes escutou a observação pois o papo literalmente murchou. O ambiente ficou extremamente pesado à medida que o silêncio aumentava. Para aumentar o desconforto escutou-se a esposa do Bosco, que chegava com o filho no colo perguntar, várias vezes:

-Onde é que está o meu marido? Onde está o meu marido?

Não havia resposta a dar e me pareceu que ninguém queria conversar mais. O impensável tinha, com certeza, acontecido. Pensei, com os meus botões, na melhor das hipóteses o Bosco vai aparecer no Portão da Guarda num carro da polícia.

De repente, me senti deslocado naquele local. Eu tinha muito trabalho pela frente e o que quer que fosse que tivesse acontecido, já tinha acontecido e nada podia ser feito para mudar. Ações deveriam ser tomadas, mas não competia a mim tomá-las. Na cabeça eu torcia pelo Bosco, mas no coração sabia que ele não iria aparecer.

Aquilo que temíamos, mas sabíamos que tinha uma grande chance de acontecer, tinha acontecido e da forma mais dramática, na festa de chegada, isto é, tínhamos perdido mais um avião e desta vez, possivelmente, também o piloto.

Nestas circunstâncias, a melhor coisa a fazer era mergulhar de cabeça no serviço, pois no dia seguinte era minha vez de embarcar para os Estados-Unidos e trazer para casa um F-5E, igualzinho aqueles que estavam ali.

Achei o Zorron e combinamos, aleatoriamente, qual avião cederia o motor para o resgate do Cel. Rubens. Na presente situação, o Grupo só teria um F-5E disponível por algum tempo. Isto não afetaria a minha esquadrilha, uma vez que já estava decidido que iríamos buscar os aviões sem tê-los voado. Nosso primeiro vôo seria em Palmdale.(54)

Durante o resto do dia a confusão só aumentou. Eu fiz todo o esforço possível para me manter ocupado e nem aparecer no setor de operações. Em algum momento vi o helicóptero com o PARASAR(55) chegar, e sair com o Cel. Menezes, Comandante da Base.

Quando o helicóptero voltou fiquei observando de longe, mas percebi que o Cel. Menezes desembarcou chorando. Fiquei olhando pro nada, perdido nos pensamentos e finalmente concluí:

-É verdade, deu merda, o Bosco pulou o muro.

Realmente o Bosco havia perecido num acidente muito comum em aviação ainda hoje em dia: CFIT (Controlled Flight Into Terrain)(56) na final para pouso. As causas do acidente seriam encontradas na investigação que já começara.

O que aconteceu no restante do dia desapareceu na penumbra, não me recordo de um só detalhe. Acho que passei o resto do dia tentando me ocupar ao máximo para não pensar. Ao entardecer, o C-115 que faria o resgate do avião que ficou para trás, estava carregado e pronto para a missão, e seguiu viagem.

À noite no velório, que surpreendentemente não me lembro onde foi, o Cel Luiz Carlos, ex-Comandante do 1o/4o e que estava então no A-3(57) do COMAT, procurava a Esquadrilha que iria embarcar no dia seguinte. Quando finalmente nos reuniu, queria saber se nos sentíamos confortáveis com a missão que iríamos executar.

Foi difícil crer que, em última análise, estava cabendo a nós decidir se a missão ia ou não sair, mas ali estava a verdade nua e crua, a pergunta estava feita. Acho que todos nós queríamos resolver aquilo de uma vez por todas, mas a resposta foi, mesmo com uma pontada de frustração, que achávamos conveniente voar o F-5E antes de viajar.

Foi assim que, sob o efeito emocional, da perda de um companheiro e mais um avião, que o COMAT aceitou transferir as operações do 1o GAC do Galeão para Anápolis, e retardar a saída da minha esquadrilha. Tivesse tudo aquilo acontecido numa Força Aérea, com certeza haveria um inquérito para apuração dos erros cometidos e seus responsáveis.

Na nossa força aérea ninguém realmente se incomodou com os fatos, e a vida continuou como se nada houvesse acontecido.

Em função dos eventos, as mudanças no planejamento do translado foram as seguintes:

·Os aviões que já estavam prontos em Palmdale seriam transladados por uma esquadrilha montada com “Willie Boys”;

·Minha esquadrilha buscaria os próximos aviões a ficarem prontos;

·O Grupo de Caça transferiria sua operação para Anápolis até a pista de Santa Cruz ficar pronta.

O Maj. Luzardo não ficou muito satisfeito com a mudança na escala e conseguiu fazer alguns vôos de F-5E e se incorporar na esquadrilha de “Willie Boys”, que ficou sendo a seguinte:

  • Maj. Luzardo
  • Cap. Lazzarini
  • Cap. Bellon
  • Ten. Quírico

Na minha esquadrilha, o Maj. Areal assumiu o comando em substituição ao Maj. Luzardo.

Quatro dias depois de todos estes eventos já iniciávamos nossas operações em Anápolis. É difícil descrever o que foi chegar em Anápolis depois de todas as encrencas no Rio de Janeiro. Foi mais ou menos como sair de um filme preto e branco e entrar num filme colorido, tal era o contraste.

Devido à mudança na escala do translado, ficamos com um número de instrutores insuficiente para continuar com o programa de treinamento. Foi assim que nós, que já tínhamos solado o F-5B e estávamos prontos para voar o F-5E, nos tornamos instrutores, com um total de 8 horas em média na aeronave. Como não havia “novinhos” envolvidos no processo, o número reduzido de horas não constituiu problema.

Chegamos em Anápolis com um F-5E e cinco F-5B’s, sendo que, com a chegada do Cel. Rubens, passamos a ter dois F-5E’s. Como só tínhamos cinco motores, o terceiro F-5E ficou aguardando um motor no Galeão.

Ficou decidido ainda que cada grupo de pilotos passaria 15 dias voando em Anápolis. Portanto nestes 15 dias nós, os pilotos da próxima esquadrilha de translado, deveríamos concluir o nosso treinamento e voltar para o Rio para embarcar para os EUA.

Meu primeiro vôo em Anápolis foi um vôo de duplo comando no Chmielewski, (Chiminho para a turma), enquanto o Sergio fazia seu solo de F-5E. Em seguida, depois de concluir o treinamento preparatório, ou seja: hora de cabine, cheque de olhos vendados(58) , prova de emergência. etc… foi minha vez de voar o F-5E.

F-5B no PAMA-SP

Realmente o F-5E parecia uma máquina de guerra. Comparado com o F-5B, era um grande salto em performance. De fato, apesar de serem ambos aviões de carga alar relativamente alta e supersônicos, a semelhança na pilotagem era ou é pequena.

Desde a decolagem ficou evidente que o F-5E tinha uma grande tendência de levantar o nariz (pitch-up). Talvez fosse uma característica que iria merecer atenção na pilotagem. Naqueles dias não fazíamos toque e arremetida no F-5E, para economizar pneus, fazíamos um procedimento chamado de “low approach”(aproximação baixa), que consistia em executar a arremetida no momento em que se iria retirar o motor para o pouso.

No meu pouso final a tendência de “pitch-up” me atrapalhou um pouco e toquei as rodas, não intencionalmente, bem no início da pista (“on the numbers”)(59) . Isto foi notado pelo Cel. Rubens, o instrutor, que acompanhava o vôo de outro avião. No debrifim ele comentou o fato, apontando-o como um erro de pilotagem. Ao final do debrifim comentei a tendência de “pitch-up” e o Cel. Rubens achou estranho pois esta característica não fora notada por ninguém antes.

É importante lembrar que o F-5E ainda estava em desenvolvimento e os vôos de ensaios da Northrop ainda não estavam concluídos, de modo que nós poderíamos estar, de fato, notando uma característica não percebida anteriormente. O Sérgio, que havia voado imediatamente antes, havia feito comentário semelhante. Assim sendo, resolvemos investigar o avião para comprovar que tudo estava correto com os comandos de vôo.

Isto feito, constatamos que durante a troca de motor a manutenção havia montado o comando do profundor incorretamente. Haviam deixado desconectada uma interligação profundor/”air brake”(60) e a montagem do profundor estava errada. Isto corrigido, a tendência de “pitch-up” desapareceu. Um a zero para meu ego, que estava machucado com o erro no pouso.

Vale a pena fazer uma pausa na estória para comentar um detalhe importante na compra do F-5. Ao voar o F-5E ficou evidente a limitada validade do treinamento pré-solo no F-5B. Durante o processo de compra dos aviões o Grupo de Caça, sob orientação de seu Comandante, produziu um trabalho demonstrando as vantagens financeiras e operacionais de não se adquirir o F-5B.

A proposta era de enviar todos os pilotos do Grupo para o treinamento de transição operacional no 425o “Tactical Fighter Squadron” enquanto se esperava pela introdução do F-5F(61) para, aí sim, adquirirmos o treinador correto. Alguma brilhante inteligência decidiu o contrário, forçando a FAB ficar engasgada com o F-5B por muitos anos.

O resto do treinamento em Anápolis foi rotineiro e ao final de 15 dias estávamos no Rio prontos para a partida. Estávamos em Agosto de 1975, e parecia que nossas agruras estavam terminadas.

Ledo engano, pois prevíamos fazer o translado em 15 dias, mas a viagem durou 35, tendo culminado com uma grave doença do Comandante da Esquadrilha que o levaria de nosso convívio para sempre.

Esta estória contaremos no próximo capítulo.

T.Cel.Av.R.R. Gilberto Pedrosa Schittini
Piloto de Caça – Turma de 1971

Conheça seis curiosidades sobre os caças F-5 da FAB

 F-5 EM FAB Aeroflap Porto Alegre desfile 07 de setembro independência rasante

O Northrop F-5 Tiger II é o principal caça de 1ª Linha da Força Aérea Brasileira. O avião está em serviço no Brasil desde 1975, tendo recebido uma extensa modernização que praticamente o tornou “outro caça”.

No entanto, o Tigre, como também é chamado pelos militares e entusiastas, se aproxima da sua aposentadoria. Neste ano a FAB deve receber os primeiros caças F-39 Gripen operacionais. Adquiridos em 2014, os 36 novos jatos substituirão o F-5, bem como o AMX A-1, dedicado às missões de ataque e reconhecimento.

Neste artigo, vamos conhecer seis curiosidades sobre o F-5 durante a sua carreira da FAB, que deve demorar pelo menos mais 10 anos para se encerrar. Vamos lá!

F-5 santa cruz FAB
Caças F-5EM no pátio da Base Aérea de Santa Cruz, em 2018. Foto: Sargento Johnson Barros/FAB.

Três lotes distintos

A FAB adquiriu um total de 79 caças F-5 desde 1973, mas não foram todos de uma vez. A primeira compra se deu em 1973, quando foram encomendados 36 F-5E Tiger II e seis F-5B Freedom Fighter novos de fábrica por US$ 115 milhões (US$ $722.1 milhões hoje).

Estes primeiros F-5 receberam uma série de customizações solicitadas pela própria FAB, como assentos ejetáveis Martin Baker, rádios VHF, VHF/ADF e sistemas de auxílio de navegação ILS, VOR e DME. Por isso, os F-5E receberam modificações estruturais na forma de uma antena de barbatana e uma quilha dorsal, sendo que esta última virou um símbolo dos F-5E do primeiro lote. 

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Caças F-5E do 1º GAvCa. Foto: FAB.

Anos depois, após perder uma série de unidades em acidentes diversos (incluindo um fatal no primeiro voo de entrega), a FAB se viu na necessidade de adquirir mais caças. Após um impasse com o Governo dos EUA – que quase fez com que o Brasil comprasse caças da China – em 1988 foi assinada a compra de mais 26 caças usados por US$ 13,1 milhões (US$ 30,8 milhões em valores atuais), sendo 22 F-5E e quatro F-5F de dois assentos. 

No entanto, esses aviões “novos” vieram em péssimo estado pois eram empregados por esquadrões aggressor, usados em treinamentos de combate aéreo aproximado (dogfight) por anos. Por isso, quando chegaram ao Brasil, os caças tiveram de ser reformados pelo Parque de Material Aeronáutico de São Paulo (PAMA-SP), no Campo de Marte. Esta organização ainda é responsável por realizar as manutenções mais pesadas nos F-5 e outras aeronaves da FAB.

F-5 FAB aggressor
Os F-5E FAB 4864, 4857, 4875 e 4862, todos ex-aggressor, sobrevoando o litoral gaúcho em 1989. Foto: Livro do Northrop F-5 no Brasil/Arquivo Leandro Casella.

Todos os 26 aviões foram repassados ao 1º Esquadrão do 14º Grupo de Aviação (1º/14º GAv), o Esquadrão Pampa, com sede na Base Aérea de Canoas (RS). As aeronaves do 1º lote foram concentradas na Base Aérea de Santa Cruz (RJ), onde eram operadas pelos 1º e 2º esquadrões do 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAvCa), os esquadrões Jambock e Pif-Paf. 

Avançando mais no tempo, chegamos ao 3º lote, também de caças usados. Com a modernização, contratada em 2001, a FAB também viu a necessidade de ter mais unidades do F-5. Antes mesmo de assinar o upgrade dos aviões, o Comando da Aeronáutica já sondava o mercado buscando caças F-5 usados, já que a produção havia se encerrado em 1987. 

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Esquadrilha de F-5E/F da Força Aérea Real Jordaniana. O F-5F no topo da formação foi adquirido pelo Brasil em 2007 e hoje é o FAB 4810. Foto Rogier Westerhuis/Airliners.net

Em 2003, o Governo quase adquiriu 12 caças da Suíça, mas por motivos desconhecidos o contrato não foi fechado. Apenas em setembro de 2007, dois anos depois de ter recebido o primeiro caça modernizado, a FAB conseguiu comprar o terceiro lote com a Força Aérea Real Jordaniana (RJAF), composto de oito F-5E e três F-5F.


F-5 ex-RJAF preservado no MUSAL. Foto: Camila Couto.

A ideia era modernizar todas as aeronaves, o que não aconteceu por razões orçamentárias. Apenas os F-5F de dois assentos passaram pela modernização na Embraer, enquanto os F-5E serviram como fontes de peças. Alguns ainda sobrevivem preservados em exposição. pelo país.

F-5Fm 4810 fab
F-5FM 4810. Foto: Embraer.

Hoje, a FAB possui 42 F-5EM e quatro F-5FM em operação em quatro esquadrões: Jaguar, Pampa, Jambock e Pif-Paf.

Guerra eletrônica e reabastecimento em voo

Uma das inovações que o F-5 trouxe foi o reabastecimento em voo (REVO). O Tigre da Northrop foi o primeiro avião da FAB a poder receber combustível durante o voo, operação que ocorreu pela primeira vez no país em 04 de maio de 1976 com um dos dois KC-130H adquiridos em 1974.

REVO FAB
KC-130 reabastecendo um F-5. Tenente-Coronel Botelho/FAB.

A operação se faz necessária especialmente pelo baixo alcance do caça e as grandes distâncias que deve percorrer em um país continental como o Brasil. Hoje, as aeronaves A-1, H-36, F-39, SC-105, KC-390 e os A-4 da Marinha do Brasil podem fazer REVO, mas o F-5 foi o primeiro a realizar essa missão há quase 50 anos.

Ciman pod
Mecânicos montando um pod Caiman no F-5.

Além do REVO, o F-5 também introduziu a Guerra Eletrônica ativa na Força Aérea. Isso foi possível através da adaptação dos pods Thomson CT-51F Caiman nos F-5 do Esquadrão Pampa. Foram adquiridos dois casulos e quatro pods de interferência com a França em 1984. 

Os pods foram desenvolvidos para uso no Mirage F1, mas receberam modificações para serem carregados no cabide ventral de alguns F-5E. O mesmo se deu mais tarde com alguns F-5E do 2º lote. Até 1995 as missões de guerra eletrônica faziam parte do dia a dia do esquadrão gaúcho, mas os problemas técnicos apresentados pelo Caiman e a perda de uma unidade em acidente ditou o fim destas operações.

Caiman pod F1 jaguar
O pod Caiman montado em um SEPECAT Jaguar.

Voando com o ‘inimigo’ em terras amigas

Como explicado anteriormente, um dos lotes adquiridos pela FAB era composto de aviões usados pela Força Aérea dos Estados Unidos em treinamentos. Contudo, pelo menos um desses F-5 foi usado em algo além disso. 

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Militares do 4477th Test and Evaluation Squadron (4477th TES) com o F-5E 14-01557. Foto via Wikimedia.

Uma foto disponível na internet indica que o F-5E de matrícula 14-01557 esteve em operação com o 4477th Test and Evaluation Squadron, esquadrão chamado de Red Eagles. Esta era uma unidade secreta da USAF criada na década de 1980 com um propósito importante: testar e descobrir tudo o que pudesse sobre caças soviéticos capturados, principalmente os MiG-17 Fresco, MiG-21 Fishbed e MiG-23 Flogger. 

Mais tarde, esse mesmo F-5 foi adquirido pela FAB e está em serviço até hoje! Quer saber mais sobre essa história? Confira esta matéria do Portal Aeroflap.

Capacete com mira

A modernização realizada pela Embraer e a AEL Sistemas (subsidiária da Elbit Systems de Israel) praticamente transformou o F-5 e um caça de 3ª para 4ª Geração. Os upgrades deram aos Tigres um cockpit completamente novo e moderno, sistema de geração de oxigênio (OBOGS), radar multimodo, capacidade de combate além do alcance visual, novos armamentos e outras novidades para a FAB. 

Porém, um dos equipamentos mais importantes que a modernização trouxe foi o HMD, sigla para Helmet Mounted Display. Trata-se de um capacete que projeta na própria viseira as informações mais relevantes sobre o voo e o combate. O modelo usado pelos pilotos de F-5 é o Elbit DASH IV. 

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Piloto de F-5 usando um capacete DASH IV. Foto: Gabriel Centeno.

Apesar de ser um pouco mais pesado que o capacete comum, o HMD DASH IV traz a enorme vantagem de poder disparar contra o inimigo apenas olhando para ele e pressionando o botão de lançamento no manche. Além disso, o piloto pode olhar para fora a qualquer momento sem perder informações de altitude, rumo, velocidade e outras. 

Esta mesma tecnologia estará disponível para os pilotos de F-39 Gripen, que usarão o capacete Targo II, também da Elbit. 

Mistério na Lagoa

Para os gaúchos, a Lagoa dos Patos é um dos símbolos do Rio Grande do Sul. O corpo d’água cobre boa parte do estado e extenso desse jeito, ele tem seus segredos. Um desses segredos permanece muito bem guardado até hoje. 

Em 28 de julho de 1982, um par de caças F-5 do Esquadrão Pampa decolava para uma missão de combate aéreo 1×1 (dogfight), operação que sempre fez parte da rotina da unidade. As aeronaves voaram para uma das áreas de treinamento sobre a Lagoa dos Patos e começaram o combate. 

Caças F-5E sobrevoando a Lagoa dos Patos.

Em um dos F-5, de matrícula FAB 4831, estava o Tenente Aviador Edson
Luiz Chiapetta Macedo. Aquele seria seu último voo. Em algum momento do treinamento, o Tenente Edson sofreu uma desorientação espacial e mergulhou com o caça na Lagoa.

O outro F-5 regressou à Canoas e a FAB iniciou as buscas imediatamente. Durante duas semanas, a Força Aérea, a Polícia e o Corpo de Bombeiros procuraram pelo F-5, achando apenas pequenos pedaços. O FAB 4831 e o Tenente Edson Chiapetta jamais foram encontrados e mistério permanece até hoje.

O primeiro de todos os F-5

Diferentemente de outros aviões da sua época, o F-5E Tiger II não teve uma aeronave protótipo mas sim um modelo de pré-produção e isso se deve ao fato dele ser uma evolução do F-5A Freedom Fighter. 

Este F-5, que possuía a matrícula 11417 na Força Aérea dos EUA, fez seu primeiro voo em 11 de agosto de 1972, mas não foi preservado após os testes. Pelo contrário, entrou em serviço nos esquadrões aggressor da USAF. 

O F-5E 11417 fez seu primeiro voo em 1972. Foto: USAF.

Avançando para 1988, este mesmo F-5 foi adquirido no 2º lote da FAB e no Brasil virou o 4856. O “antigão”, que completa 50 anos em 2022, segue em operação firme e forte. Além disso, o 4856 também foi o primeiro F-5 modernizado entregue à FAB para uso operacional. O caça foi recebido pelo Esquadrão Pampa em setembro de 2005. 

O FAB 4856 no Esquadrão Pacau, unidade que recentemente foi desativada. Foto: Rafael Dinelli.

Além do primeiro de todos, a FAB também opera o 2º F-5 produzido. O F-5E 11418 virou o FAB 4857 no Brasil. Durante sua carreira, o avião foi usado em testes com o canhão de 30mm GPU-5/A, bombas Paveway II e mísseis AGM-65 Maverick.