Fabricante brasileira projeta receita entre US$ 8,2 bilhões e US$ 8,5 bilhões neste ano, para chegar a US$ 10 bilhões no início da próxima década
Para isso, a empresa tem atacado a redução do chamado lead time de produção, que é o tempo entre o início e a conclusão de uma aeronave. Desde 2021, a companhia aplica uma metodologia chamada VSEM (Value Stream Mapping), que mapeia cada etapa do processo produtivo e elimina atividades que não agregam valor.
Os resultados aparecem nos números: o tempo de fabricação dos jatos executivos caiu 45% no período. No modelo Praetor, o corte foi ainda mais acentuado, de 17 meses para 8,5 meses, uma redução de 50%. Na divisão de defesa, o ganho foi de 34%; na aviação comercial, de 28%.
“Queremos ser o fabricante original de equipamentos (Original Equipment Manufacturer) mais eficiente do mundo”, disse Francisco Gomes Neto, CEO da Embraer, durante evento para veículos nacionais e internacionais, entre eles o InvestNews, realizado na sede da empresa, em São José dos Campos, no interior de São Paulo, nesta quarta-feira (10).
Gomes Neto e o CFO Felipe Santana apresentaram detalhes da carteira de pedidos recorde que a companhia registrou no primeiro trimestre, mostrando que não restam nem sombras da tentativa frustrada de aquisição feita pela Boeing, que colocou a empresa brasileira em certa letargia entre 2018 e 2020. “A Embraer está mais forte do que nunca”, resume o CEO.
Desafios na fábrica
A iniciativa de diminuir o tempo de produção tem efeito direto na capacidade industrial. Ao fazer mais aeronaves nos mesmos espaços e com os mesmos ativos, a empresa aumenta o volume sem precisar expandir proporcionalmente a estrutura física, embora também invista em novos equipamentos, como cabines de pintura e áreas de preparação de estruturas.
O segundo desafio operacional é o nivelamento das entregas ao longo do ano. Historicamente, a Embraer concentra grande parte de suas entregas no quarto trimestre, especialmente em dezembro, o que pressiona margens e fluxo de caixa.
A empresa trabalha para distribuir melhor essa produção, com 2027 sendo o ano-alvo para uma mudança mais significativa nesse padrão. “Nosso CFO está sorrindo porque espera isso há muitos anos”, brincou Gomes.
Carteira de pedidos
A carteira de pedidos firmes, o chamado backlog (termo em inglês para o total de encomendas já contratadas e ainda não entregues) encerrou o primeiro trimestre de 2026 em US$ 32,1 bilhões, o sexto recorde consecutivo e 22% acima do mesmo período do ano anterior, segundo dados divulgados pela companhia em maio. O valor equivale a quatro ou cinco anos de produção.
Incluindo opções e direitos de compra, o número sobe para US$ 52 bilhões. Ainda não estão contabilizados nessa cifra os 10 aviões cargueiros KC-390 anunciados para os Emirados Árabes Unidos nem os 15 jatos E2 para a Azorra.
O backlog está distribuído entre todos os segmentos: aviação comercial, executiva, defesa e serviços. A divisão executiva, sozinha, soma US$ 7,6 bilhões em pedidos, também um recorde histórico.
Projeções
Para 2026, a Embraer projeta receita entre US$ 8,2 bilhões e US$ 8,5 bilhões, cerca de US$ 1 bilhão acima do recorde registrado em 2025 (US$ 7,6 bilhões). A empresa espera uma margem de lucro operacional entre 8,7% e 9,3%, com ponto médio de 9%. O fluxo de caixa livre, ou seja, o dinheiro que entra de fato, deve superar US$ 200 milhões no ano.
O CFO Felipe Santana destacou a transformação da estrutura financeira da companhia nos últimos anos. A Embraer encerrou 2025 com caixa líquido, ou seja, com mais recursos em caixa do que dívidas, pela primeira vez em 12 anos. Além disso, o prazo médio da dívida passou de 3,7 anos em 2021 para mais de 9 anos, reduzindo a pressão de pagamentos no curto prazo. A alavancagem líquida (indicador que mede o nível de endividamento em relação à geração de caixa) caiu a zero.
Segundo o CFO, o avanço das vendas veio acompanhado de ganhos de rentabilidade. Na prática, a cada US$ 1 bilhão adicional de receita, a Embraer acrescentou mais de US$ 100 milhões ao lucro operacional – o Ebit, aquele que vem antes do pagamento de impostos e de juros de dívida.
A companhia também recuperou sua classificação de crédito para um nível acima do grau de investimento, selo concedido a empresas consideradas de baixo risco de inadimplência, ficando em linha ou acima de concorrentes globais do setor aeroespacial, segundo o executivo.
Meta de longo prazo
O horizonte mais ambicioso é chegar a uma receita de dois dígitos em bilhões de dólares, ou seja, acima de US$ 10 bilhões, antes de 2030, com base no portfólio atual. Após essa data, o crescimento seria turbinado por novos produtos, incluindo o eVTOL da subsidiária EVE, cujo primeiro voo ocorreu em dezembro de 2025 e cuja entrada em serviço está prevista para até o final de 2028.
Para sustentar esse crescimento, a Embraer diz investir em sete frentes tecnológicas: emissão zero, voo autônomo, competitividade de estruturas, Indústria 4.0, cibersegurança, inteligência artificial e experiência do passageiro.
Apesar do cenário favorável, analistas do Itaú BBA recomendam compra das ações da Embraer e têm preço-alvo de US$ 70, acima dos níveis atuais de negociação. Na avaliação do banco, o principal risco para a tese é uma deterioração do cenário geopolítico global, que poderia manter os preços dos combustíveis elevados por mais tempo e levar companhias aéreas a adiar ou cancelar pedidos.
Gomes, CEO da Embraer, reconheceu a preocupação, mas afirmou que ainda não há sinais concretos de impacto sobre a demanda da fabricante.
“Vemos uma forte inquietação entre as aéreas por causa do preço do combustível”, disse o executivo. “Mas, por enquanto, nenhum cliente pediu para atrasar entregas.”


















