Lockheed Martin amplia aposta na parceria com a Tata Advanced Systems e tenta superar a proposta brasileira da Embraer e Mahindra no programa de transporte da Força Aérea Indiana.
A Lockheed Martin apresentou em 4 de outubro uma proposta para ampliar sua presença industrial na Índia e fornecer 60 aeronaves C-130J-30 à Força Aérea Indiana dentro do programa Medium Transport Aircraft. O plano prevê 12 aviões entregues prontos para voo e 48 produzidos localmente em parceria com a Tata Advanced Systems, além da modernização dos 12 C-130J já operados pela Índia. A proposta é parte de uma concorrência estimada em US$ 10,5 bilhões destinada a renovar a capacidade de transporte militar do país e reduzir a dependência de aeronaves antigas.
A oferta norte-americana surge justamente quando a Embraer e a Mahindra avançam em uma proposta industrial própria para o mesmo programa. Em 1º de outubro, as empresas confirmaram Nagpur, no estado de Maharashtra, como local potencial para uma futura linha de montagem final do C-390 Millennium, caso o avião brasileiro seja selecionado. A disputa ganhou, portanto, uma dimensão industrial ainda maior, com Tata e Mahindra competindo não apenas pelo contrato, mas pela oportunidade de estabelecer uma nova base de produção aeroespacial militar na Índia.
O programa indiano prevê 60 aeronaves na primeira etapa, com capacidade de transporte na faixa de 18 a 30 toneladas. A intenção de Nova Délhi é substituir principalmente a envelhecida frota de Antonov An-32, que permanece como um dos pilares do transporte tático da Força Aérea Indiana após décadas de serviço. O modelo escolhido também deverá ampliar a capacidade de deslocar tropas, equipamentos e suprimentos para áreas remotas e de grande altitude, particularmente relevantes para a Índia devido à extensão de suas fronteiras com a China e o Paquistão.
Nesse cenário, o C-130J-30 apresenta uma vantagem operacional considerável por já ser conhecido pela Força Aérea Indiana. Os 12 exemplares atualmente em serviço foram incorporados a partir de 2010 e são empregados em transporte tático, operações especiais, lançamento de tropas e cargas e missões em ambientes austeros. A experiência acumulada com o modelo reduz os custos de treinamento e os riscos associados à introdução de uma nova plataforma.
A nova proposta pretende aproveitar justamente essa infraestrutura existente. A Tata já fabrica componentes e conjuntos estruturais do C-130J em Hyderabad, integrando a cadeia de fornecimento global da aeronave. A expansão anunciada pela Lockheed Martin levaria essa participação a um patamar muito superior, com fabricação de 48 aviões na Índia e uma cadeia industrial mais ampla envolvendo montagem, manutenção e suporte logístico.
A proposta também prevê atualizar os 12 C-130J existentes para uma configuração comum às novas aeronaves. Na prática, isso permitiria à Força Aérea Indiana operar uma frota potencial de 72 Super Hercules com maior padronização de equipamentos, aviônicos e suporte. Essa uniformidade pode representar uma vantagem importante durante décadas de operação, principalmente em disponibilidade, treinamento e logística.

O C-390 Millennium, entretanto, apresenta uma diferença fundamental. O avião da Embraer foi concebido desde o início como uma plataforma de transporte a jato de nova geração e oferece capacidade máxima de carga de 26 toneladas e velocidade máxima de 470 nós, ou Mach 0,80. O C-130J-30 possui capacidade máxima de carga na casa das 20 toneladas e velocidade de cruzeiro de aproximadamente 356 nós, segundo os dados publicados pela própria Lockheed Martin.
A diferença de desempenho pode ser relevante para a Índia. Uma maior carga útil permite transportar equipamentos mais pesados ou mais volume em uma única missão, enquanto a velocidade superior do C-390 reduz o tempo necessário para deslocamentos de longa distância. A aeronave brasileira também foi projetada para executar missões de transporte de tropas e equipamentos, lançamento aéreo, evacuação aeromédica, busca e salvamento, combate a incêndios e reabastecimento em voo.
A possível instalação em Nagpur pela Embraer e pela Mahindra não seria apenas uma linha de montagem para atender a Índia, mas parte de um ecossistema destinado à produção, manutenção, integração e suporte do C-390. A localização também pode ajudar a transformar o país em um polo regional de atendimento da aeronave, especialmente caso novos clientes surjam na Ásia.
A Lockheed Martin, por sua vez, parte de uma posição mais madura dentro da Índia. Sua parceria com a Tata já existe e envolve produção de componentes do C-130J, enquanto a empresa também avança na criação de capacidade de manutenção pesada para o modelo no país. Para a Força Aérea Indiana, isso significa que boa parte da infraestrutura necessária para sustentar a nova frota já está sendo construída antes mesmo da definição do vencedor.
O governo indiano terá de avaliar transferência de tecnologia, participação da indústria local, custo de ciclo de vida, capacidade de manutenção, desempenho em pistas de alta altitude, cronograma de entregas e potencial de exportação a partir do país. Esses fatores podem ser tão importantes quanto as características puramente operacionais dos dois aviões. Uma eventual escolha do C-390 transformaria a Índia em um dos maiores projetos internacionais de industrialização do programa e aprofundaria a parceria entre a Embraer e a Mahindra. Além do valor financeiro do contrato, uma vitória brasileira poderia abrir portas para novos operadores asiáticos e consolidar o Millennium em um dos mercados de defesa mais importantes do mundo.
Para a Lockheed Martin, vencer significaria ampliar ainda mais a presença do C-130J em um país que já conhece a aeronave e, ao mesmo tempo, criar uma linha industrial capaz de atender uma frota muito maior. Para a Embraer, a competição representa a chance de demonstrar que um projeto brasileiro desenvolvido no século XXI pode superar um dos mais tradicionais aviões de transporte militar do mundo justamente no mercado que está buscando maior capacidade tecnológica e industrial própria.
O programa indiano se transformou assim em uma disputa entre duas filosofias. De um lado está uma plataforma consolidada, já operada pela Índia e apoiada por uma cadeia industrial existente. Do outro está um avião mais novo, com maior capacidade de carga e velocidade, associado a uma proposta de criar praticamente do zero um novo eixo industrial em Nagpur. O resultado poderá influenciar não apenas a futura frota de transporte da Índia, mas também o posicionamento global do C-390 Millennium e do C-130J nas próximas décadas


















