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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

KC-135 completa 70 anos e continua essencial para a Força Aérea dos EUA

 

Veterano avião-tanque da Boeing entrou em serviço em 1956 e permanece no centro das operações de reabastecimento aéreo, mobilidade global e projeção de poder dos Estados Unidos.


O Boeing KC-135 Stratotanker alcançou uma marca histórica ao completar 70 anos desde seu primeiro voo, consolidando-se como uma das aeronaves militares de maior longevidade ainda em operação no mundo. Desenvolvido durante a Guerra Fria para fornecer reabastecimento aéreo às aeronaves estratégicas dos Estados Unidos, o avião continua desempenhando uma função fundamental na capacidade norte-americana de projetar poder em escala global.

O primeiro KC-135 Stratotanker sai da fábrica em Renton, no estado de Washington, ao lado de um KC-97 Stratofreighter, em 1956. A combinação simbolizou o início da nova era dos aviões-tanque a jato, que posteriormente substituíram as aeronaves com motores convencionais para acompanhar a maior velocidade dos caças.

Desenvolvido pela Boeing a partir da mesma família de conceitos que originou o avião experimental Dash 80, o Stratotanker foi concebido para acompanhar os bombardeiros estratégicos B-52 e ampliar significativamente o alcance das aeronaves de combate norte-americanas. A marca foi celebrada na Base Aérea de Altus, em Oklahoma, entre 31 de agosto e 1º de setembro, reunindo atuais e antigos integrantes das unidades que operam e mantêm o veterano avião-tanque.

O primeiro KC-135 realizou seu voo inaugural em 31 de agosto de 1956, dando início a uma nova era para a aviação militar dos Estados Unidos. A aeronave foi desenvolvida para substituir os antigos aviões-tanque movidos a motores a pistão e turboélice, introduzindo a propulsão a jato em uma plataforma dedicada ao reabastecimento em voo. A primeira aeronave de produção foi entregue à Força Aérea dos EUA em 1957.

A chegada do Stratotanker modificou profundamente a forma como as forças aéreas norte-americanas poderiam conduzir operações de longa distância. Ao permitir que caças, bombardeiros, aeronaves de transporte e outras plataformas recebessem combustível sem precisar pousar, o KC-135 aumentou significativamente o alcance e a autonomia das aeronaves, reduzindo a dependência de bases avançadas e permitindo que forças militares fossem deslocadas rapidamente entre diferentes regiões do planeta.

Sete décadas depois, essa capacidade continua sendo considerada estratégica. Em conflitos e operações internacionais, a disponibilidade de aeronaves-tanque pode determinar por quanto tempo uma força aérea consegue permanecer em determinada região e a distância a partir da qual seus aviões de combate podem operar. Para os Estados Unidos, que mantêm forças e aliados em praticamente todas as regiões do mundo, essa capacidade representa um dos pilares da chamada mobilidade global.

Ao longo de sua carreira, o KC-135 passou por inúmeras modernizações para acompanhar a evolução tecnológica. Embora a estrutura básica permaneça baseada em um projeto desenvolvido na década de 1950, os aviões atualmente em serviço são muito diferentes daqueles que entraram em operação originalmente. A remotorização de grande parte da frota deu origem ao KC-135R, equipado com motores CFM56, proporcionando maior eficiência, desempenho e confiabilidade.

Um piloto da Força Aérea dos EUA, designado para o 909º Esquadrão de Reabastecimento Aéreo, realiza verificações pré-voo a bordo de um KC-135 Stratotanker na Base Aérea de Kadena, no Japão, em 4 de agosto de 2026, durante o exercício Beverly Beach 26-1. A prontidão é essencial para gerar uma dissuasão crível em um ambiente de segurança cada vez mais complexo e exigente. (Foto da Força Aérea dos EUA pelo Airman 1st Class Francisco Huerta.)

Os sistemas de bordo também foram progressivamente atualizados. Entre os principais programas está a modernização do cockpit, que introduziu instrumentos digitais, novos displays e sistemas de navegação e comunicação mais avançados. Essas modificações permitiram reduzir a carga de trabalho das tripulações e manter o avião compatível com os requisitos do espaço aéreo e das operações militares modernas.

O KC-135 também possui capacidade para desempenhar missões além do reabastecimento aéreo. Dependendo da configuração, a aeronave pode transportar pessoal e carga, além de apoiar determinadas operações de evacuação aeromédica. Essa flexibilidade ajudou a manter o Stratotanker relevante mesmo com o surgimento de novas gerações de aeronaves de transporte e reabastecimento.

A Base Aérea de Altus, em Oklahoma, possui uma relação particularmente importante com a história do KC-135. A instalação abriga uma das principais estruturas de treinamento das tripulações do avião e vem formando pilotos e operadores do sistema de reabastecimento aéreo há décadas. A comemoração dos 70 anos da aeronave destacou justamente a contribuição de gerações de militares responsáveis por operar, manter e apoiar o Stratotanker.

O general aposentado Carlton D. Everhart II, ex-comandante do Comando de Mobilidade Aérea dos EUA, afirmou: “O KC-135 é uma verdadeira plataforma de projeção de poder que nos permite superar a tirania da distância. Ele continua sendo essencial para nossa mobilidade global, e seu legado duradouro é um testemunho dos milhares de militares da Força Aérea que o mantiveram e voaram ao longo das décadas.”

Caças F-35A Lightning II, F-16 Fighting Falcon e F-22A Raptor da Força Aérea dos EUA, juntamente com um KC-135 Stratotanker, realizam missões no Joint Pacific Alaska Range Complex, nas proximidades da Base Aérea de Eielson, no Alasca, em 13 de agosto de 2026.

A longevidade do KC-135 também está relacionada à importância da missão que ele executa. Mesmo com o avanço de aeronaves furtivas, caças de quinta geração, bombardeiros estratégicos e sistemas não tripulados, essas plataformas continuam dependendo de uma infraestrutura de apoio capaz de ampliar seu alcance e tempo de permanência no ar.

KC-135 participa dos testes de reabastecimento em voo do novo bombardeiro invisível dos EUA, o B-21 Raider.

O KC-135 desempenhou um papel importante em praticamente todas as grandes operações aéreas norte-americanas das últimas décadas. Desde a Guerra do Vietnã até as operações no Oriente Médio e missões de presença e dissuasão na Europa e no Indo-Pacífico, os aviões-tanque foram empregados para sustentar operações de combate, patrulhamento, transporte e deslocamento de aeronaves.

KC-46 e KC-135.

A Força Aérea dos Estados Unidos já iniciou a substituição gradual do Stratotanker pelo Boeing KC-46A Pegasus, uma aeronave-tanque de nova geração baseada no Boeing 767. O novo avião incorpora sistemas digitais mais avançados, maior capacidade de carga, recursos aprimorados de autoproteção e uma arquitetura desenvolvida para atender às necessidades das operações futuras.

Apesar disso, a substituição não será rápida. A quantidade de KC-135 ainda necessária, os desafios relacionados à produção e integração do KC-46 e a enorme extensão das necessidades de reabastecimento aéreo dos Estados Unidos fazem com que o Stratotanker continue sendo indispensável. A expectativa é que exemplares modernizados permaneçam em serviço por muitos anos, com parte da frota podendo operar até meados do século.

A marca demonstra a capacidade de um projeto concebido nos primeiros anos da era dos jatos de permanecer relevante por gerações graças a sucessivas atualizações. O KC-135 sobreviveu a mudanças tecnológicas, transformações geopolíticas e diferentes gerações de aeronaves de combate, mantendo sua função central praticamente inalterada. Aos 70 anos, o KC-135 ainda ajuda a manter caças e bombardeiros no ar, transportar forças por grandes distâncias e sustentar operações aéreas em diferentes continentes, demonstrando por que se tornou um dos aviões mais importantes e duradouros da história da Força Aérea dos Estados Unidos.

O primeiro F-5F Tiger II e a incrível história do caça que virou “Franken-Tiger”


Primeiro F-5F produzido pela Northrop abriu caminho para uma das mais importantes versões do Tiger II e teve uma trajetória marcada por testes, treinamento, combate simulado e até uma curiosa reconstrução com partes de outro F-5.


A história do Northrop F-5F Tiger II começou em meados da década de 1970, quando a Northrop desenvolveu uma versão biposta do F-5E destinada principalmente ao treinamento de pilotos, mas que preservava importantes características operacionais do caça. O primeiro exemplar produzido recebeu o número de série “USAF 73-0889” e realizou seu primeiro voo em 1974, dando início à trajetória de uma versão que posteriormente seria empregada por forças aéreas de diversos países.

O F-5F foi desenvolvido a partir do conceito do F-5E Tiger II, porém recebeu uma fuselagem alongada para acomodar o segundo tripulante. Os dois assentos foram instalados em configuração tandem, permitindo que instrutor e aluno realizassem missões de treinamento com características muito próximas às de um voo operacional. Apesar de sua função principal de conversão e treinamento, o F-5F manteve capacidade de combate e poderia empregar armamentos e sistemas semelhantes aos encontrados no F-5E.

Northrop F-5F Tiger II, número de série 60-0889, caça/treinador (versão biposta do F-5E), pousa na Base Aérea de Edwards após um voo de teste de rotina, em agosto de 1972.

O primeiro F-5F, identificado como “73-0889”, e com número de construção W.1001, teve papel fundamental no programa de desenvolvimento e avaliação da nova aeronave. Algumas fontes mencionam 25 de setembro de 1974 como a data do primeiro voo na Edwards Air Force Base, na Califórnia, com o piloto de testes Hank Chouteau aos comandos. Mas registros de histórico do exemplar apontam 21 de agosto. Posteriormente, o avião foi incorporado à Força Aérea dos EUA e empregado em atividades de avaliação e treinamento.

O F-5F “73-0889” visto na Base Aérea de Lackland, em San Antonio, Texas, em julho de 1983, já com pintura da NASA e matrícula N550NA. (Foto: Gary Chambers)

O avião foi utilizado pelo 425th Tactical Fighter Training Squadron, em Williams Air Force Base, e posteriormente passou pela NASA, onde recebeu a matrícula civil N550NA. Atualmente, o exemplar histórico está associado ao acervo do USAF Airman Heritage Museum, em San Antonio, no Texas. Por isso, é importante diferenciá-lo de outros F-5F que posteriormente entraram em serviço operacional com a Marinha dos Estados Unidos. A Marinha recebeu três F-5F novos de fábrica, identificados pelos Bureau Numbers 160964, 160965 e 160966.

Um dos três primeiros F-5F (73-0891), durante testes na Base Aérea de Edwards.

Entre os primeiros F-5F destinados à Marinha norte-americana estava o avião que recebeu o “Bureau Number 160966”, número de construção W1012. Esse avião teve origem na produção destinada à Força Aérea dos EUA e posteriormente foi transferido para a Marinha. Há uma pequena divergência entre bases de dados sobre o número de série original: registros especializados da Marinha identificam o 160966 como o antigo USAF 75-0756, enquanto algumas páginas e bancos de imagens o associam ao 75-0755. O histórico de números de série da Marinha e registros de produção do F-5F sustentam a identificação como 75-0756. 

Embora não tenha sido o primeiro F-5F construído, o exemplar teve uma carreira particularmente interessante, passando por unidades que utilizavam os Tiger II como aeronaves agressoras para treinamento de combate aéreo.

A Marinha dos Estados Unidos empregou os F-5E e F-5F em uma função bastante especializada. Os chamados esquadrões “Aggressor” utilizavam os pequenos caças supersônicos para representar aeronaves inimigas durante exercícios, permitindo que pilotos norte-americanos treinassem contra adversários com características de desempenho e manobrabilidade diferentes das encontradas nos caças da própria Marinha.

Um F-5F no meio das aeronaves usadas pela escola Top Gun em Fallon.

O F-5 era especialmente adequado para essa missão por combinar dimensões reduzidas, elevada agilidade, desempenho supersônico e custos operacionais relativamente baixos. Durante décadas, os Tiger II foram utilizados para reproduzir diferentes táticas e perfis de ameaça, proporcionando aos pilotos uma experiência muito mais realista de combate aéreo.

O F-5F “160966” visto na NAS Fallon em 1989. (Foto: Stephan de Bruijn)

O “F-5F BuNo 160966” passou por unidades como o VFA-127 e posteriormente esteve associado ao VFC-13, acumulando uma extensa carreira operacional. Fotografias históricas mostram a aeronave em diferentes períodos e configurações, evidenciando como o Tiger II permaneceu relevante para o treinamento de combate da Marinha durante muitos anos.

Entretanto, a história do 160966 ficaria ainda mais curiosa depois de sua retirada de serviço. Em vez de simplesmente desaparecer dos registros, parte da estrutura da aeronave acabou sendo utilizada na reconstrução de outro Tiger biposto. A seção dianteira do cockpit do F-5F foi combinada com partes da fuselagem de um F-5E suíço desativado.

O segundo Franken-Tiger foi entregue ao Fighter Composite Squadron 111 (VFC-111) da NAS Key West, Flórida, em 19 de dezembro de 2008.

O resultado foi uma aeronave híbrida que recebeu o apelido de “Franken-Tiger”, uma referência ao personagem Frankenstein por ter sido montada a partir de componentes provenientes de diferentes aeronaves. O avião recebeu o BuNo 761580 e continuou a representar uma solução incomum para manter um F-5F operacional na frota norte-americana.

O F-5F “Franken-Tiger” com pintura especial usado pela NAVAIR e Northrop Grumman.

Essa história também demonstra a longevidade e a simplicidade estrutural da família F-5. Projetado originalmente como um caça leve, relativamente simples e econômico, o Tiger II acabou permanecendo em serviço por décadas, passando por modernizações, diferentes operadores e inúmeras funções, desde treinamento até missões de combate simulado.

Northrop F-5F (número de cauda 00889) em voo. (Foto da Força Aérea dos EUA)

É importante destacar que o 73-0889 foi o primeiro F-5F produzido e o primeiro exemplar a voar, enquanto o 160966 pertence à geração inicial de F-5F destinados à operação pela Marinha dos Estados Unidos. A diferença é relevante porque os dois aviões aparecem frequentemente associados à expressão “primeiro F-5F”, embora representem momentos distintos da história do modelo.

Um F-5F “Aggressor” com a pintura usada no filme Top Gun simulando um então “MiG-28”.

No total, a Northrop produziu 140 F-5Fs entre 1974 e 1986, além de exemplares construídos sob licença ou produção conjunta em outros países. A configuração biposto acabou se tornando uma das versões mais reconhecidas do Tiger II e continua sendo utilizada por alguns operadores do F-5 para treinamento e missões operacionais.

O F-5F na Força Aérea Brasileira

A história do F-5F no Brasil começou em 1988, quando a Força Aérea Brasileira adquiriu um segundo lote de F-5 Tiger II dos Estados Unidos. O negócio incluiu 22 F-5E e quatro F-5F, ampliando a capacidade brasileira de treinamento e operação com o caça supersônico.

O F-5F FAB 4809 do 1º/14º GAV taxiando em Porto Alegre em maio de 1991. (Foto: Marcelo Magalhães).

Os F-5F bipostos tiveram uma importância especial dentro da FAB porque permitiam realizar a conversão operacional dos pilotos diretamente em uma aeronave com características muito próximas às dos F-5E empregados nas missões de defesa aérea e ataque. Os aviões passaram por trabalhos de recuperação antes de entrarem plenamente em serviço no Brasil.

Duas décadas depois, a FAB voltou a ampliar sua frota de F-5F. Em 2008, o Brasil adquiriu três F-5F e oito F-5E da Força Aérea Real Jordaniana. Parte dessas aeronaves foram incorporadas ao programa brasileiro de modernização dos Tiger II, conduzido pela Embraer, que transformou os aviões na configuração F-5FM.

A modernização incluiu novos sistemas de missão, aviônicos, radar, sistemas de autoproteção, comunicação, enlace de dados e capacidade de emprego de armamentos modernos. Com essas modificações, os F-5FM passaram a oferecer aos pilotos brasileiros uma plataforma de treinamento muito mais próxima da realidade tecnológica encontrada nos caças de combate modernos.

O último F-5FM modernizado pela Embraer, o FAB 4810, foi entregue à Força Aérea Brasileira em novembro de 2020. Com isso, a FAB concluiu a modernização de sua frota de F-5F, prolongando a vida operacional dos veteranos Tiger II enquanto o país avança na introdução dos novos F-39E Gripen.

O último F-5FM entregue para FAB, com pintura especial. (Foto: Sérgio de Souza Júnior).

A trajetória do F-5F, desde o primeiro protótipo produzido pela Northrop até os modernos F-5FM empregados pela FAB, mostra a impressionante longevidade do projeto. Mais de cinco décadas depois do primeiro voo, a aeronave continua sendo uma parte importante da história da aviação de caça e permanece relevante no treinamento e na preparação de pilotos para a defesa do espaço aéreo brasileiro.