
Myasishchev M-50 Bounder – fotos colorizadas por Embase, via @AlexAftermarket
No fim dos anos 1950, quando a Guerra Fria impulsionava os Estados Unidos e a União Soviética para uma corrida tecnológica sem precedentes, o escritório de projetos Myasishchev concebeu um dos bombardeiros mais ambiciosos e visualmente impressionantes já produzidos pela indústria aeronáutica soviética: o Myasishchev M-50, conhecido pela OTAN como “Bounder”.
O M-50 nasceu como uma resposta soviética à necessidade de um bombardeiro estratégico de alta velocidade, capaz de penetrar defesas aéreas ocidentais e realizar ataques nucleares a longas distâncias. Em 1955, o OKB-23 de Vladimir Myasishchev recebeu a tarefa de desenvolver um novo bombardeiro estratégico supersônico, em um momento em que os EUA também avançavam com aeronaves como o Convair B-58 Hustler.
Um bombardeiro da era do Mach 2
O projeto era ousado. O M-50 tinha fuselagem longa e estreita, asa em delta, quatro motores a jato e aparência futurista, lembrando em linhas gerais um MiG-21 ampliado a proporções gigantescas. A tripulação de dois homens ficava em tandem, no nariz da aeronave, em uma cabine projetada para operações em grande altitude, com uso de trajes pressurizados em caso de despressurização ou ejeção.
A configuração motora era uma das características mais incomuns do avião. Dois motores ficavam sob as asas, em pilones, enquanto os outros dois eram instalados nas pontas das asas. A asa extremamente fina não comportava combustível, que era armazenado na fuselagem e transferido entre tanques dianteiros e traseiros para compensar mudanças de centragem durante a aceleração e desaceleração em regimes próximos ao voo supersônico.
Outra solução peculiar era o trem de pouso em configuração “bicicleta”, com bogies principais alinhados no eixo da fuselagem e pequenos trens auxiliares próximos às pontas das asas. Como o trem traseiro ficava muito atrás do centro de gravidade, o nariz precisava ser levantado por um sistema hidráulico de dupla extensão para facilitar a rotação na decolagem.
O problema dos motores
No papel, o M-50 deveria ser uma aeronave de desempenho impressionante. O projeto previa velocidade máxima de cerca de 1.950 km/h, ou aproximadamente Mach 1,8, teto de serviço de 14.000 metros, alcance projetado de até 13.000 km e carga bélica de cerca de 5.000 kg. A aeronave tinha 57,48 metros de comprimento, 25,1 metros de envergadura na configuração inicial e peso máximo previsto de 145 toneladas.
Mas o grande obstáculo foi a propulsão. O M-50 deveria receber quatro turbojatos Zubets RD-16-17 com pós-combustão, mas o desenvolvimento desses motores não acompanhou o ritmo da construção da aeronave. Quando o protótipo foi apresentado em 1958, recebeu temporariamente quatro Dobrynin VD-7BA sem pós-combustão, bem menos potentes que os motores planejados. A aeronave passou então a ser chamada de M-50A.
Essa solução provisória comprometeu profundamente o desempenho. Mesmo após modificações e a instalação posterior de motores internos com pós-combustão, o M-50A permaneceu submotorizado. Durante os ensaios, não conseguiu atingir voo supersônico sustentado; em mergulho raso, sua velocidade teria ficado limitada a cerca de Mach 0,99.
Primeiro voo e acidente em solo
O M-50A foi desmontado e levado ao centro de testes de Zhukovsky em outubro de 1958. Após ensaios de táxi e ajustes técnicos, realizou seu primeiro voo em 27 de outubro de 1959, pilotado por Nikolay Goryainov e A. S. Lipko.
O programa, porém, enfrentou problemas desde cedo. Em 12 de maio de 1960, durante um teste de motores em solo, o M-50A saltou os calços das rodas e colidiu com um protótipo do bombardeiro Myasishchev 3ME. O 3ME foi perdido, mas o M-50A acabou reparado e voltou a voar cerca de dois meses depois.
A aparição em Tushino

Apesar das limitações técnicas, o M-50 cumpriu um papel importante na guerra psicológica e propagandística da Guerra Fria. Em 9 de julho de 1961, o enorme bombardeiro apareceu no desfile aéreo de Tushino, escoltado por dois caças MiG-21. Para observadores ocidentais, a aeronave causou forte impressão: era grande, barulhenta, incomum e parecia anunciar uma nova geração de bombardeiros soviéticos supersônicos.
A apresentação levou a OTAN a atribuir ao M-50 o nome-código “Bounder”. Mas havia uma ironia: o voo de Tushino foi também o último da aeronave. Ao todo, o protótipo teria voado apenas 19 vezes.
O M-52, a versão que não chegou a voar
A evolução natural do M-50 seria o M-52, um modelo redesenhado para receber os motores planejados originalmente, com melhorias na instalação motora, cockpit lado a lado, terceiro tripulante no nariz e alterações aerodinâmicas, incluindo uma pequena superfície horizontal no topo da deriva. Também havia planos para armamento defensivo e para o transporte de mísseis de cruzeiro sob as asas ou junto à fuselagem.
O M-52 chegou a ser construído em grande parte, mas nunca voou. A combinação de problemas técnicos, mudanças doutrinárias e prioridades políticas acabou encerrando o programa antes que a aeronave pudesse demonstrar plenamente seu potencial.
O fim da era dos grandes bombardeiros tripulados
O cancelamento do M-50/M-52 refletiu uma transformação estratégica mais ampla. No início dos anos 1960, a liderança soviética, especialmente sob Nikita Khrushchev, passou a considerar os mísseis balísticos intercontinentais como o eixo principal da dissuasão nuclear. Bombardeiros tripulados de longo alcance passaram a ser vistos como mais vulneráveis, mais caros e menos promissores diante do avanço dos ICBMs e dos programas espaciais e de mísseis.
Esse fenômeno não foi exclusivamente soviético. No Ocidente, programas como o North American XB-70 Valkyrie também foram afetados pela crescente importância dos mísseis balísticos, pelo avanço das defesas antiaéreas e pela percepção de que bombardeiros estratégicos tripulados teriam dificuldade em sobreviver em um cenário nuclear.
Legado
O único M-50A sobrevivente acabou preservado no Museu Central da Força Aérea, em Monino, para onde foi transferido em 1968. O M-52, praticamente concluído, permaneceu por algum tempo em Zhukovsky e foi desmontado nos anos 1970.
O Myasishchev M-50 nunca entrou em serviço, nunca atingiu as metas de desempenho previstas e jamais se tornou a arma estratégica que seus projetistas imaginaram. Ainda assim, ocupa lugar especial na história da aviação militar. Ele representa o momento em que a União Soviética tentou saltar da geração dos grandes bombardeiros subsônicos para uma plataforma supersônica intercontinental, combinando velocidade, alcance e capacidade nuclear.
Na prática, o “Bounder” foi um símbolo de transição: nasceu para uma guerra aérea que estava sendo superada pelos mísseis balísticos antes mesmo de amadurecer. Como tantos projetos extremos da Guerra Fria, foi ao mesmo tempo uma máquina real, uma mensagem política e uma aposta tecnológica. Sua silhueta colossal em Tushino, escoltada por caças MiG-21, resumiu bem aquela época: uma era em que aparência, velocidade e alcance eram tão importantes quanto a própria capacidade operacional.■

Myasishchev M-50A “Bounder” – Principais Características | |
|---|---|
| Característica | Dados principais |
| Identificação e histórico | |
| Designação | Myasishchev M-50A |
| Nome atribuído pela OTAN | “Bounder” |
| Tipo | Protótipo de bombardeiro estratégico supersônico de longo alcance |
| País de origem | União Soviética |
| Desenvolvedor | OKB-23, dirigido por Vladimir Myasishchev |
| Primeiro voo | 28 de outubro de 1959 Algumas fontes ocidentais registram a data de 27 de outubro. |
| Quantidade construída | Um protótipo M-50A em condições de voo O sucessor M-52 foi parcialmente concluído, mas não chegou a voar. |
| Voos realizados | 19 voos |
| Último voo | 9 de julho de 1961, durante o desfile aéreo de Tushino |
| Situação do programa | Cancelado antes da entrada em serviço |
| Tripulação e configuração | |
| Tripulação | Dois tripulantes, piloto e copiloto, instalados em tandem |
| Configuração aerodinâmica | Fuselagem longa e estreita, asa delta de implantação média e superfícies de cauda integralmente móveis |
| Posição dos motores | Dois motores em pilones sob as asas e dois instalados nas extremidades alares |
| Controles de voo | Comandos eletro-hidráulicos, elevada automação e transferência de combustível para ajustar a centragem durante as mudanças de velocidade |
| Trem de pouso | Configuração tipo bicicleta, com dois conjuntos principais sob a fuselagem e estabilizadores auxiliares junto às pontas das asas |
| Dimensões e pesos | |
| Comprimento | Aproximadamente 57,5 metros |
| Envergadura inicial | Aproximadamente 25,1 metros |
| Envergadura após modificações | Aproximadamente 35,1 metros Resultado da instalação de extensões destinadas aos motores e aos trens auxiliares das pontas das asas. |
| Altura | Aproximadamente 8,25 metros |
| Área alar | Aproximadamente 290,6 m² |
| Peso vazio | Aproximadamente 79 a 85 toneladas Os valores publicados variam conforme a fase e a configuração do protótipo. |
| Peso máximo de decolagem | Entre aproximadamente 145 e 200 toneladas O maior valor refere-se às configurações e capacidades projetadas para o programa. |
| Propulsão | |
| Motorização pretendida | Quatro turbojatos Zubets RD-16-17 com pós-combustão Esses motores não ficaram disponíveis a tempo para os ensaios do M-50A. |
| Motorização do protótipo modificado | Dois Dobrynin VD-7AM com pós-combustão nos pilones internos e dois VD-7BA nas pontas das asas |
| Empuxo dos motores internos | Aproximadamente 156,9 kN cada, com pós-combustão |
| Empuxo dos motores externos | Aproximadamente 93,2 kN cada |
| Desempenho | |
| Velocidade máxima projetada | Aproximadamente 1.900 a 2.000 km/h Cerca de Mach 1,8 a Mach 2, dependendo da altitude e da configuração. |
| Velocidade efetivamente atingida | Aproximadamente 1.050 km/h, ou Mach 0,99 O protótipo não conseguiu romper a barreira do som com a motorização provisória. |
| Alcance projetado | Aproximadamente 10.000 a 13.000 quilômetros O valor dependia do perfil de missão, carga e emprego do míssil de cruzeiro. |
| Alcance estimado do M-50A | Aproximadamente 9.600 quilômetros |
| Teto operacional projetado | Aproximadamente 14.000 a 16.000 metros |
| Armamento e missão | |
| Missão prevista | Ataques estratégicos nucleares e convencionais contra alvos de longo alcance |
| Compartimento de armas | Baia interna de grande comprimento, projetada para receber bombas ou um míssil de cruzeiro estratégico |
| Míssil previsto | Míssil de cruzeiro supersônico Myasishchev M-61, também conhecido como projeto 44 |
| Armamento operacional | Nenhum; o M-50A permaneceu como aeronave experimental e nunca entrou em serviço |
| Preservação | |
| Exemplar sobrevivente | Preservado no Museu Central da Força Aérea, em Monino, próximo a Moscou |
| Nota: os dados publicados sobre o M-50 apresentam diferenças significativas porque algumas fontes descrevem o projeto operacional, enquanto outras utilizam a configuração efetivamente testada do M-50A. A aeronave recebeu motores provisórios, alterações nas naceles e extensões nas pontas das asas, modificando peso, envergadura e desempenho ao longo do programa. | |



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