Aliança prepara anúncio histórico que pode transformar sua capacidade de alerta aéreo antecipado e fortalecer a indústria de defesa europeia
A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) está prestes a anunciar uma das maiores mudanças em sua estrutura de vigilância aérea desde o fim da Guerra Fria. Durante a cúpula da aliança, que será realizada nos dias 7 e 8 de julho em Ancara, na Turquia, os países-membros deverão confirmar a seleção do Saab GlobalEye como substituto da envelhecida frota de aeronaves Boeing E-3A Sentry, utilizadas há mais de 40 anos nas missões de alerta aéreo antecipado (AWACS).
Caso seja oficializada, a decisão marcará a primeira vez que a OTAN adota uma plataforma de alerta aéreo desenvolvida fora da Boeing, encerrando uma era iniciada no início da década de 1980. A escolha também representa uma importante vitória para a indústria europeia de defesa em um momento em que diversos países buscam ampliar sua autonomia estratégica.
Atualmente, a OTAN opera 14 aeronaves E-3A Sentry baseadas em Geilenkirchen, na Alemanha. Esses aviões participaram de praticamente todas as grandes operações da aliança nas últimas quatro décadas, incluindo a Guerra do Golfo, os conflitos nos Bálcãs, as campanhas no Afeganistão e no Oriente Médio, além das atuais missões de vigilância reforçada sobre o flanco leste europeu após a invasão russa da Ucrânia.

Apesar de continuarem operacionais, os E-3A enfrentam desafios crescentes relacionados ao envelhecimento da célula, altos custos de manutenção e à obsolescência de diversos sistemas eletrônicos. O Boeing 707, plataforma sobre a qual o AWACS foi desenvolvido, deixou de ser produzido há décadas, tornando cada vez mais complexa a obtenção de peças de reposição.
A substituição faz parte do programa Alliance Future Surveillance and Control (AFSC), criado para desenvolver a próxima geração das capacidades de vigilância, comando e controle da OTAN. O conceito não prevê apenas uma nova aeronave, mas uma arquitetura integrada composta por satélites, sensores terrestres, sistemas não tripulados, inteligência artificial e aeronaves tripuladas trabalhando de forma coordenada para gerar um quadro operacional em tempo real.
Inicialmente, a OTAN havia escolhido o Boeing E-7 Wedgetail como sucessor do E-3A. Entretanto, o cenário mudou radicalmente após o Departamento de Defesa dos Estados Unidos cancelar seu programa de aquisição da aeronave durante a revisão orçamentária de 2025. Embora o Congresso norte-americano ainda discuta alternativas para restaurar parte do financiamento, a decisão obrigou a aliança a reavaliar suas opções e abriu caminho para a proposta da Saab.
O GlobalEye é considerado uma das mais avançadas plataformas de vigilância aérea atualmente disponíveis. Desenvolvido sobre o moderno jato executivo Bombardier Global 6500, o sistema reúne sensores capazes de monitorar simultaneamente alvos no ar, em terra e no mar.
Seu principal equipamento é o radar Erieye ER, de varredura eletrônica ativa (AESA), que utiliza tecnologia baseada em nitreto de gálio (GaN), proporcionando maior potência, melhor resistência à guerra eletrônica e alcance superior a 550 quilômetros para alvos aéreos em grandes altitudes. A aeronave também incorpora o radar marítimo Leonardo Seaspray 7500E, sensores eletro-ópticos e infravermelhos, sistemas avançados de inteligência eletrônica e enlaces de dados que permitem compartilhar informações em tempo real com caças, navios, centros de comando e outras plataformas militares.
Diferentemente dos tradicionais AWACS, cuja principal função é detectar aeronaves, o GlobalEye foi concebido como uma plataforma multimissão. Além de acompanhar centenas de aeronaves simultaneamente, o sistema pode localizar embarcações, veículos terrestres, mísseis de cruzeiro e outros alvos de pequenas dimensões, mesmo em ambientes altamente contestados por guerra eletrônica.
Outro fator decisivo para a possível escolha da OTAN é o custo operacional. Baseado em um jato executivo moderno, o GlobalEye apresenta consumo de combustível significativamente menor, maior disponibilidade operacional e custos de manutenção reduzidos quando comparado aos antigos quadrimotores Boeing E-3A. Fontes ligadas ao programa indicam ainda que versões destinadas à aliança poderão incorporar capacidade de reabastecimento em voo, ampliando o tempo de permanência em missões de vigilância estratégica.
A plataforma também vem conquistando espaço entre operadores ocidentais. Os Emirados Árabes Unidos foram o primeiro cliente do GlobalEye e atualmente operam cinco aeronaves. A Suécia adquiriu o sistema para substituir seus Saab 340 AEW&C e expandiu recentemente sua encomenda para três unidades. Em junho deste ano, o Canadá anunciou a compra de seis aeronaves para reforçar a vigilância do Ártico, enquanto a França selecionou o GlobalEye para substituir seus Boeing E-3F Sentry, consolidando a aeronave como uma das principais soluções de alerta aéreo do mercado.
Caso a aquisição pela OTAN seja confirmada, o contrato deverá superar o pedido canadense e se tornar a maior encomenda da história do programa GlobalEye.
A decisão também possui forte peso político. Pouco mais de dois anos após a entrada oficial da Suécia na OTAN, a escolha de um sistema desenvolvido pela Saab reforçaria o papel crescente da indústria europeia dentro da aliança e reduziria a dependência de fornecedores norte-americanos em um segmento historicamente dominado pelos Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, o projeto mantém um elevado grau de integração internacional. A aeronave utiliza a plataforma Bombardier Global 6500, fabricada no Canadá, além de diversos sistemas produzidos por empresas europeias e norte-americanas, preservando a interoperabilidade entre os países aliados.

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