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sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Lockheed Martin desafia empresas portuguesas a produzir partes do F-35

 Linha de produção do F-35

Linha de produção do F-35

Caça é um dos concorrentes à substituição da frota de F-16. Quatro empresas nacionais, da área de compósitos e estruturas, serão convidadas a apresentar propostas para produzirem equipamento no país

A Lockheed Martin vai convidar formalmente quatro empresas portuguesas a apresentar propostas para fabricar duas estruturas do caça F-35 Lightning II. O pedido de propostas deve ser enviado até o fim de novembro. A iniciativa foi anunciada na quarta-feira (21) a jornalistas portugueses que visitavam a linha de montagem do caça em Fort Worth, no Texas. O movimento ocorre num momento em que o fabricante americano disputa com concorrentes europeus a substituição dos F-16 da Força Aérea Portuguesa (FAP).

Segundo Lisa Herrmann, responsável pelo Desenvolvimento de Negócios Internacionais da Lockheed Martin e principal interlocutora da empresa com o governo, a FAP e a indústria de Portugal, o programa F-35 identificou a necessidade de uma segunda fonte de fornecimento para dois componentes estruturais da aeronave. Ao longo dos últimos dois anos, a empresa trabalhou com a Força Aérea, com o AED Cluster Portugal (que reúne mais de 170 entidades dos setores aeronáutico, espacial e de defesa), com a holding estatal IdD Portugal Defence e com o Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP) para mapear capacidades industriais no país.

As quatro empresas portuguesas atuam no segmento de materiais compósitos e estruturas aeronáuticas e vão concorrer com outras seis companhias estrangeiras, num total de dez candidatas. Nem os nomes das empresas nem as peças em disputa foram revelados. Herrmann justificou o sigilo com a necessidade de preservar a neutralidade do processo competitivo. O valor do contrato também não foi divulgado, e a Lockheed apontou a redução de custos como um dos motivos para buscar novos fornecedores.

Concurso independe da compra

A Lockheed Martin afirma que o concurso não está condicionado à escolha do F-35 por Lisboa. A empresa o apresenta, no entanto, como amostra do que poderia ser a cooperação industrial caso Portugal adquira o caça, cenário em que a participação portuguesa na cadeia de produção do programa tenderia a crescer. O programa F-35 tem vida útil prevista até 2070.

Além das duas estruturas, a fabricante diz ter identificado 17 projetos potenciais em Portugal, nas áreas de coprodução, transferência de tecnologia, exportação, integração na cadeia de suprimentos, manutenção e pesquisa e desenvolvimento. Esses projetos envolveriam 23 empresas e três universidades. Em maio, durante outra visita de jornalistas portugueses a Fort Worth, a empresa falava em 16 projetos. Segundo relatos da imprensa portuguesa, a Lockheed estima que o pacote poderia gerar mais de mil empregos e um retorno econômico superior a 1 bilhão de euros, números que teriam sido apresentados ao governo português.

A empresa também mencionou o desenvolvimento de um sistema de vigilância e monitoramento do domínio marítimo, chamado Dragon, e destacou o histórico de cooperação com Portugal, que opera ou operou outros aviões da fabricante, como o C-130 e o P-3. Em paralelo, a empresa de drones portuguesa Tekever, sediada em Ponte de Sor, trabalha para integrar a uma de suas aeronaves não tripuladas o Perceptor, sensor eletro-óptico e infravermelho da Lockheed destinado a drones de pequeno porte. Uma demonstração para um cliente comum está prevista para a primavera europeia de 2027.

Há precedente recente de participação europeia na cadeia do F-35. A Finlândia, que comprou 64 caças, fornece desde março a fuselagem dianteira da aeronave, fabricada pela Patria.

Disputa com europeus

A oferta industrial é também uma resposta aos concorrentes. Além do F-35, disputam a substituição dos F-16 portugueses o Gripen E, da sueca Saab, o Eurofighter Typhoon, do consórcio liderado pela Airbus, e o Rafale, da francesa Dassault.

Todos firmaram memorandos com o AED Cluster Portugal para contrapartidas industriais. A Saab admite instalar em Portugal uma linha de montagem final do Gripen E.

A Airbus já tem acordos com dezenas de empresas portuguesas e prometeu entregar uma proposta até o início de novembro. A Dassault, por sua vez, entra na disputa com parceiros como Thales e Safran.

O governo português tem defendido que a compra dos novos caças se traduza em retorno direto para a economia nacional, por meio da integração de empresas em cadeias globais de fornecimento e da criação de empregos qualificados.

O investimento total pode chegar a 5 bilhões de euros ao longo do ciclo de vida de cerca de 30 aeronaves, incluindo logística, treinamento de pilotos e manutenção. O número de caças, porém, ainda não foi definido.

O F-35 parte com vantagem técnica. Em maio, o jornal Expresso revelou um estudo interno da FAP no qual o caça americano superou os concorrentes na maioria dos 20 critérios avaliados. O general João Cartaxo Alves, que comandava a Força Aérea antes de assumir em março a chefia do Estado-Maior-General das Forças Armadas, defendeu publicamente a transição direta para um caça de quinta geração, em nome da interoperabilidade com os aliados da OTAN.

A pressão política de Washington também se intensificou. Em visita a Lisboa no início de outubro, o secretário de Estado Marco Rubio disse considerar o F-35 o melhor avião do mundo e afirmou que os Estados Unidos fariam a Portugal uma oferta muito competitiva, ressalvando que a escolha caberá aos portugueses. O chanceler Paulo Rangel respondeu que nenhuma decisão foi tomada e que o Estado português decidirá de acordo com o interesse nacional.

A concorrência para a aquisição ainda não foi aberta. Ela deverá ser incluída na revisão da Lei de Programação Militar, instrumento que planeja os investimentos das Forças Armadas, a ser apresentada ao Parlamento até o fim do ano.

Coincidentemente, nesta quinta-feira (22) a Lockheed Martin e o Departamento de Defesa dos EUA anunciaram um acordo preliminar para a produção e o suporte de pelo menos 850 F-35 ao longo dos próximos dez anos, mantendo a cadência de 156 aeronaves por ano. O acordo abrange também encomendas internacionais

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