Frota de Sukhoi Superjet 100 da extinta Interjet permanece abandonada há anos e expõe os desafios da indústria aeronáutica russa para competir no mercado global
Vinte e dois jatos regionais Sukhoi Superjet 100 permanecem abandonados em aeroportos mexicanos, formando uma das imagens mais marcantes do fracasso comercial de uma aeronave que, há pouco mais de uma década, era apresentada como a grande aposta da Rússia para desafiar fabricantes consolidadas como Embraer e Bombardier no mercado global de aviação regional.
As aeronaves pertenciam à companhia aérea mexicana Interjet, que chegou a se tornar o maior operador internacional do modelo e uma das principais vitrines do programa fora da Rússia. Hoje, os aviões permanecem espalhados principalmente entre os aeroportos de Toluca e da Cidade do México, expostos ao sol, chuva e deterioração natural, sem qualquer perspectiva concreta de retorno ao serviço.
Quando recebeu seus primeiros Superjets em 2013, a Interjet apostava em uma estratégia de expansão baseada em aeronaves modernas e de menor custo de aquisição. O acordo foi celebrado como um marco para a fabricante russa Sukhoi Civil Aircraft, que via no México uma porta de entrada para os mercados da América Latina e da América do Norte.
Inicialmente, a operação mostrou resultados promissores. Passageiros elogiavam o conforto da cabine, considerada uma das mais espaçosas da categoria de até 100 assentos. O modelo também incorporava diversos sistemas fornecidos por empresas ocidentais, incluindo componentes produzidos por fabricantes da França, Itália e Estados Unidos, o que ajudava a transmitir confiança ao mercado internacional.
No entanto, os problemas começaram a aparecer poucos anos após a entrada em serviço. O principal desafio envolvia a disponibilidade de peças de reposição e o suporte logístico da fabricante. Embora a aeronave apresentasse desempenho operacional satisfatório em diversas rotas, a dificuldade para obter componentes rapidamente passou a impactar diretamente a disponibilidade da frota.
Os motores PowerJet SaM146, desenvolvidos em parceria entre empresas russas e francesas, tornaram-se um dos pontos mais críticos. Inspeções frequentes, revisões complexas e atrasos na cadeia de suprimentos provocavam longos períodos de indisponibilidade. Em diversas ocasiões, aeronaves permaneceram semanas ou até meses em solo aguardando manutenção.
A situação se agravou em dezembro de 2016, quando inspeções obrigatórias identificaram problemas estruturais relacionados ao estabilizador horizontal. Como consequência, metade da frota mexicana foi temporariamente retirada de operação para verificações e reparos. O episódio chamou a atenção da indústria aeronáutica internacional e aumentou as dúvidas sobre a maturidade do programa.
Nos anos seguintes, o cenário continuou piorando. Diversas aeronaves passaram a permanecer estacionadas em hangares e pátios aeroportuários, enquanto a companhia enfrentava dificuldades crescentes para manter a operação. Especialistas apontavam que a reduzida rede global de suporte técnico e manutenção representava uma desvantagem significativa em comparação com concorrentes ocidentais.

Em 2019, a Interjet já buscava alternativas para reduzir sua dependência dos Superjets. Relatórios do setor indicavam que a empresa avaliava vender parte da frota ou até mesmo encerrar completamente as operações com o modelo. Naquele momento, vários aviões já estavam fora de serviço de forma permanente.
A chegada da pandemia de COVID-19 acabou acelerando o colapso da companhia aérea mexicana. Com a queda abrupta da demanda por transporte aéreo e problemas financeiros acumulados ao longo dos anos, a Interjet suspendeu operações no final de 2020 e posteriormente encerrou suas atividades. Com isso, toda a frota de Superjets ficou sem operador.
Imagens recentes mostram aeronaves com sinais visíveis de deterioração. Algumas apresentam pintura desgastada, motores preservados apenas parcialmente e evidências de exposição prolongada às intempéries. Grande parte dessas células dificilmente voltará a voar devido aos elevados custos de recuperação e à escassez de componentes certificados.
O abandono dos Superjets mexicanos também ganhou um significado ainda maior após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. As sanções impostas por países ocidentais atingiram diretamente a cadeia de suprimentos do programa, que dependia fortemente de fornecedores estrangeiros. Isso reduziu drasticamente as possibilidades de revenda, recuperação ou transferência das aeronaves para outros operadores.
O caso da Interjet é frequentemente citado como um exemplo de que o sucesso de um programa aeronáutico depende não apenas da qualidade técnica da aeronave, mas também de uma robusta rede global de suporte pós-venda. Estudos da indústria apontam que a logística de manutenção e fornecimento de peças foi um dos principais fatores que limitaram a expansão internacional do Superjet.
Apesar dos problemas enfrentados pela versão original, a Rússia continua apostando no projeto. A indústria aeronáutica do país trabalha atualmente na certificação do SJ-100, uma variante profundamente modernizada e equipada com maior participação de componentes produzidos localmente. O objetivo é reduzir a dependência tecnológica do Ocidente e garantir a continuidade da produção em um cenário de sanções internacionais.
Enquanto a nova versão tenta construir um futuro para o programa, os 22 Superjets abandonados no México permanecem como um lembrete visível dos desafios enfrentados por fabricantes que buscam competir em um mercado global extremamente exigente. O que deveria representar a consolidação da aviação comercial russa no exterior acabou se transformando em um dos casos mais emblemáticos de fracasso operacional e comercial da aviação regional moderna.

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