
Draken e Viggen
Duas aeronaves da Guerra Fria serão transferidas ao MAPA, no Campo de Marte, ampliando o acervo internacional do novo museu e simbolizando a parceria estratégica entre Brasil e Suécia
A Suécia deverá doar exemplares dos caças Saab 35 Draken e Saab 37 Viggen ao Museu Aeroespacial Paulista (MAPA), instalado no Campo de Marte, em São Paulo. As duas aeronaves representam gerações sucessivas da indústria aeronáutica sueca durante a Guerra Fria e antecederam diretamente o desenvolvimento do JAS 39 Gripen, atualmente operado pela Força Aérea Brasileira.
O compromisso foi revelado pelo diretor do MAPA, brigadeiro Rodrigo Fernandes Santos, na inauguração do museu. Segundo ele, o comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro Marcelo Kanitz Damasceno, tratou do assunto com a Força Aérea Sueca, que prometeu ceder ao acervo brasileiro um Draken e um Viggen provenientes de sua coleção histórica.
As versões específicas, os números de série, o estado de conservação e o calendário de transporte das aeronaves ainda não foram anunciados publicamente. Também não está esclarecido se a transferência será formalizada diretamente pela Força Aérea Sueca, pelo Museu da Força Aérea Sueca ou com participação institucional da Saab.
MAPA amplia acervo internacional
O Museu Aeroespacial Paulista foi oficialmente ativado em 3 de julho de 2026 como uma organização militar do Comando da Aeronáutica. Instalado na área do Parque de Material Aeronáutico de São Paulo, no Campo de Marte, o museu ficará subordinado ao Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica e passará por um processo de implantação, ampliação e adequação de infraestrutura previsto inicialmente para o período entre 2026 e 2029.
O projeto foi concebido para reunir aeronaves, motores, documentos e outros objetos relacionados à história da aviação brasileira e internacional. A diretriz de implantação também prevê exposições interativas, atividades educacionais, projetos de pesquisa e parcerias com instituições estrangeiras.
A chegada dos dois caças suecos reforçará a dimensão internacional do acervo. O MAPA também recebeu um C-2A Greyhound que encerrou sua carreira operacional no Brasil e foi destinado à preservação depois de permanecer retido no Aeroporto do Galeão por problemas mecânicos.
Draken revolucionou a aerodinâmica dos caças europeus

O Saab 35 Draken, cujo nome significa “dragão” em sueco, realizou seu primeiro voo em 25 de outubro de 1955. Foi desenvolvido para defender o espaço aéreo da Suécia contra bombardeiros que poderiam atacar o país em grandes altitudes e velocidades.
Sua característica mais conhecida era a asa em duplo delta, solução criada para combinar bom desempenho supersônico com estabilidade e controle em velocidades menores. O Draken tornou-se o primeiro caça produzido em série com essa configuração e também o primeiro avião sueco capaz de atingir duas vezes a velocidade do som.
O aparelho entrou em serviço na Força Aérea Sueca em 1960 e permaneceu em operação no país até 1998. Foram construídos 612 exemplares, incluindo 12 montados sob licença na Finlândia. Além da Suécia, o modelo foi utilizado por Dinamarca, Finlândia e Áustria.
Ao longo de sua carreira, o Draken foi produzido em versões de interceptação, reconhecimento e treinamento. O projeto também foi adaptado ao sistema sueco de dispersão, no qual os caças deveriam operar a partir de bases menores e pistas alternativas caso os grandes aeródromos fossem atacados.
Viggen introduziu canards e operação em pistas curtas

O Saab 37 Viggen, cujo nome pode ser traduzido como “raio” ou “trovão”, representou um salto tecnológico em relação ao Draken. Seu protótipo realizou o primeiro voo em 8 de fevereiro de 1967, e o primeiro exemplar de produção foi entregue à Força Aérea Sueca em junho de 1971.
O Viggen adotava uma grande asa delta combinada com superfícies dianteiras do tipo canard. Essa configuração proporcionava sustentação adicional durante pousos e decolagens, permitindo que a aeronave operasse em trechos relativamente curtos de rodovias e pistas improvisadas.
O caça também empregava reversor de empuxo, recurso pouco comum em aviões militares de combate, que ajudava a reduzir a distância de pouso e permitia ao aparelho recuar no solo sem depender de veículos rebocadores.

O projeto nasceu para substituir o Saab 32 Lansen e, progressivamente, parte das funções exercidas pelo Draken. A família incluiu versões de ataque AJ 37, reconhecimento fotográfico SF 37, reconhecimento marítimo SH 37, treinamento SK 37 e interceptação JA 37.
O Viggen também se destacou pelo uso pioneiro de computadores, enlaces de dados e sistemas eletrônicos integrados. A Saab considera o modelo um precursor de várias tecnologias e conceitos posteriormente aperfeiçoados no Gripen.
As últimas aeronaves da família deixaram o serviço ativo na Suécia em 2005, embora exemplares preservados continuem realizando demonstrações históricas.
Do Draken ao Gripen

A incorporação das duas aeronaves permitirá ao público brasileiro acompanhar parte importante da evolução da engenharia aeronáutica sueca.
O Draken representa a primeira grande geração supersônica desenvolvida pela Saab. O Viggen incorporou conceitos de operação dispersa aprimorada, arquitetura eletrônica avançada e integração entre sensores. O Gripen reuniu essas experiências em uma plataforma multimissão mais leve com glass cockpit e preparada para atualizações contínuas.
Essa trajetória possui especial relevância para o Brasil, que adquiriu inicialmente 36 caças Gripen E e F e participa do desenvolvimento e da produção da nova geração por meio da parceria entre Saab, Embraer e empresas da cadeia nacional. Em março de 2026, foi apresentado o primeiro Gripen E produzido no Brasil, nas instalações da Embraer em Gavião Peixoto.
A doação também ocorre no contexto de uma relação bilateral mais ampla. Brasil e Suécia celebraram em 2026 dois séculos de relações diplomáticas, enquanto a cooperação em torno do Gripen ampliou os contatos entre governos, forças aéreas, universidades e indústrias dos dois países.


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