Pesquisar este blog

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Paraguai avalia caças F-5 de Taiwan para recuperar capacidade supersônica


Aeronaves aposentadas pela Força Aérea de Taiwan podem ajudar Assunção a reconstruir sua aviação de combate a reação após mais de duas décadas sem caças supersônicos.


O Paraguai avalia a possibilidade de incorporar caças Northrop F-5 Tiger II retirados de serviço por Taiwan em um movimento que poderá devolver à Força Aérea Paraguaia sua capacidade de operar aeronaves de combate supersônicas. A proposta faz parte de uma aproximação militar entre Assunção e Taipei e surge no momento em que Taiwan avança na substituição de seus antigos F-5 e AT-3 por aeronaves mais modernas.

A eventual chegada dos F-5 representaria uma mudança significativa para a aviação militar paraguaia, que não opera aeronaves de combate a reação desde a retirada dos Embraer AT-26 Xavante. Os jatos brasileiros foram incorporados em 1979 e permaneceram em serviço até o início dos anos 2000, deixando a Força Aérea Paraguai sem uma plataforma capaz de ultrapassar a velocidade do som.

Entre as aeronaves consideradas por Assunção estão o F-5 Tiger II e o AIDC AT-3 Tzu Chung, ambos associados à aviação militar de Taiwan. O F-5 aparece como a alternativa mais interessante para recuperar a capacidade supersônica, enquanto o AT-3 poderia desempenhar principalmente funções de treinamento avançado e ataque leve.

O interesse paraguaio ocorre depois de uma visita de alto nível da Força Aérea de Taiwan ao país. Em julho, o general Tian Zhong-Yi, vice-chefe do Estado-Maior da Força Aérea de Taiwan, visitou instalações militares paraguaias, incluindo a Primeira Brigada Aérea, em Luque. Na mesma ocasião, o presidente Santiago Peña anunciou que aeronaves de treinamento a jato seriam incorporadas à Força Aérea Paraguaia por meio de um acordo de cooperação com Taiwan.

O F-5 Tiger II apresenta características que poderiam facilitar sua introdução no Paraguai. O modelo é relativamente simples quando comparado a caças de gerações mais recentes, possui histórico operacional extenso e continua sendo utilizado ou mantido em diferentes países. O avião é capaz de atingir aproximadamente Mach 1,6, permitindo ao Paraguai recuperar uma capacidade de interceptação que não existe entre suas atuais aeronaves de combate.

Outro fator favorável é a familiaridade dos militares paraguaios com o F-5. Pilotos da Força Aérea Paraguaia já tiveram contato operacional com o modelo durante exercícios multinacionais realizados na América do Sul, incluindo o Salitre e o CRUZEX. Além disso, a força mantém relacionamento com empresas norte-americanas envolvidas em programas de defesa e infraestrutura, o que poderia facilitar determinados aspectos logísticos.

Taiwan encerrou oficialmente a carreira operacional de seus últimos F-5 em 2025, depois de décadas de serviço. A aeronave havia desempenhado um papel importante na defesa do espaço aéreo taiwanês antes de ser gradualmente substituída por F-16, Mirage 2000, caças F-CK-1 e, posteriormente, pelos F-16V e novos sistemas desenvolvidos localmente.

O AT-3 Tzu Chung também aparece nas avaliações paraguaias. Desenvolvido em Taiwan como treinador avançado e aeronave de ataque leve, o modelo é subsônico e possui dois lugares, características que poderiam ser particularmente úteis para a formação de pilotos destinados posteriormente à operação de caças de maior desempenho.

A plataforma pode empregar armamento para missões de ataque e defesa, incluindo canhões, bombas e foguetes, além de possuir capacidade para transportar mísseis ar-ar em determinadas configurações. Sua velocidade máxima é próxima de 900 km/h, colocando-o em uma categoria bastante diferente da do F-5, mas ainda assim muito mais próxima de um jato de combate convencional do que os atuais turboélices utilizados pela FAP.

Jato AT-3

A eventual incorporação dos jatos ocorreria paralelamente ao programa de modernização que já está em andamento no Paraguai. A Força Aérea recebeu seis Embraer A-29 Super Tucano, adquiridos por aproximadamente US$ 101,6 milhões, destinados principalmente a missões de vigilância, patrulhamento, treinamento e ataque leve. Quatro aeronaves já foram incorporadas, enquanto as demais estão previstas para completar a frota.

Os Super Tucano ampliam significativamente a capacidade paraguaia de controlar seu espaço aéreo e combater ameaças de baixa intensidade, mas não substituem um caça supersônico. Um F-5 acrescentaria justamente uma capacidade diferente, permitindo realizar missões de interceptação em alta velocidade e treinamento de combate aéreo com uma aeronave de desempenho muito superior.

O principal obstáculo, porém, está nos custos e na infraestrutura necessária para manter uma frota de caças antigos em condições operacionais. Os F-5 oferecidos por Taiwan acumulam décadas de serviço, e qualquer transferência exigiria uma avaliação detalhada das células, motores, aviônicos, sistemas de armas e vida útil remanescente.Super Tucano da FAP.

A operação também exigiria investimentos em peças de reposição, equipamentos de apoio em solo, treinamento de pilotos e mecânicos, infraestrutura de manutenção e disponibilidade de combustível e horas de voo. Estimativas divulgadas pela imprensa paraguaia apontam para um custo operacional de aproximadamente US$ 5 mil por hora de voo para um F-5, valor significativamente superior ao atribuído aos A-29 Super Tucano.

A diferença de custos poderá ser um dos principais fatores na decisão final. Enquanto o Super Tucano é adequado para patrulhamento de fronteiras e operações contra aeronaves utilizadas em atividades ilícitas, o F-5 representaria uma plataforma voltada para uma missão mais específica, relacionada à defesa aérea e à interceptação.

O planejamento paraguaio poderia envolver entre 10 e 15 aeronaves de treinamento e combate, com possíveis entregas a partir de 2027. Ainda assim, a quantidade definitiva, o modelo escolhido e as condições de transferência não foram oficialmente confirmados pelo governo paraguaio.

A possibilidade também tem um precedente histórico. Na década de 1990, Taiwan chegou a considerar a transferência de F-5E/F para o Paraguai, mas a operação não foi concretizada. Mais de três décadas depois, a aposentadoria dos F-5 taiwaneses e o fortalecimento da cooperação entre os dois países voltam a colocar o modelo no radar de Assunção.

Se o projeto avançar, o Paraguai poderá reconstruir gradualmente uma capacidade de aviação de combate a reação perdida há mais de duas décadas. A combinação entre A-29 Super Tucano, possíveis AT-3 e F-5 criaria uma estrutura escalonada, permitindo empregar cada aeronave de acordo com o nível de ameaça e a complexidade da missão.

Para a Força Aérea Paraguaia, entretanto, o desafio não será simplesmente receber os aviões, mas criar condições para mantê-los voando de maneira consistente. A disponibilidade de recursos para treinamento, manutenção e operação será determinante para transformar a eventual transferência dos F-5 em uma capacidade militar efetiva.

Nenhum comentário:

Postar um comentário