
Criados a partir de dois dos caças mais importantes de seu tempo, os demonstradores norte-americano e soviético disputaram recordes de subida em condições extremas. O confronto, porém, terminou com um placar mais complexo do que geralmente se conta
Durante a Guerra Fria, a capacidade de ganhar altitude rapidamente era mais do que uma característica técnica. Ela simbolizava a possibilidade de interceptar bombardeiros, lançar mísseis em condições favoráveis e conquistar vantagem sobre o adversário nos primeiros minutos de um combate.
Foi nesse contexto que surgiram dois aviões especialmente preparados para desafiar o cronômetro: o McDonnell Douglas F-15 Streak Eagle, dos Estados Unidos, e o Sukhoi P-42, da União Soviética. Separadas por pouco mais de uma década, as duas campanhas produziram algumas das marcas aeronáuticas mais duradouras da história.
A narrativa habitual afirma que o P-42 simplesmente tomou todos os recordes do F-15. Os registros mostram uma história mais interessante: o Sukhoi superou as marcas norte-americanas até 15 mil metros, enquanto os recordes de 25 mil e 30 mil metros haviam sido recuperados pelo MiG-25 ainda em 1975. A marca do Streak Eagle para 20 mil metros, por sua vez, permanece numericamente intacta em sua antiga categoria.
Um F-15 despido para correr contra o relógio
Em 1974, quando o F-15 ainda estava começando sua carreira operacional, a McDonnell Douglas recebeu um contrato de US$ 2,1 milhões para demonstrar publicamente o desempenho do novo caça. A aeronave escolhida foi o F-15A-6-MC de matrícula 72-0119, posteriormente batizado Streak Eagle.
O avião foi submetido a um rigoroso programa de redução de peso. Foram retirados o radar, o sistema de controle de tiro, armamentos, atuadores dos flapes e do freio aerodinâmico, equipamentos de comunicação, parte do sistema hidráulico, um gerador e instrumentos considerados desnecessários.

Até a pintura foi removida, deixando a fuselagem com o característico acabamento metálico. Segundo o Air Force Materiel Command, aproximadamente 816 quilos foram eliminados em comparação com um F-15A convencional do mesmo lote.
Em seu voo destinado a alcançar 30 mil metros, o Streak Eagle decolou com cerca de 16,7 toneladas, das quais aproximadamente 3,2 toneladas correspondiam ao combustível. Como os freios não eram suficientes para manter o caça parado com os motores em pós-combustão máxima, um cabo de aço preso à pista segurava a aeronave até a liberação por um dispositivo explosivo.
Os testes foram realizados na Base Aérea de Grand Forks, na Dakota do Norte. O frio intenso do inverno produzia ar mais denso, favorecendo o funcionamento dos motores Pratt & Whitney F100 e aumentando o desempenho aerodinâmico.
Oito recordes em pouco mais de duas semanas
Entre 16 de janeiro e 1º de fevereiro de 1975, os pilotos Roger Smith, W.R. “Mac” Macfarlane e Dave Peterson estabeleceram oito recordes de tempo de subida. As melhorias sobre as marcas anteriores variaram de aproximadamente 15% a 33%.
Nos voos mais altos, o perfil era quase balístico. Para chegar aos 30 mil metros, o F-15 acelerava a Mach 2,25 antes de iniciar uma subida a cerca de 60 graus. Os motores apagavam quando o combustível deixava de alimentá-los adequadamente, mas o avião continuava subindo por inércia.
O Streak Eagle cruzou os 30 mil metros — 98.425 pés — apenas 207,8 segundos depois de ser liberado na pista. Ainda prosseguiu até aproximadamente 103 mil pés, onde sua velocidade caiu para cerca de 55 nós. Em seguida, mergulhou para recuperar velocidade e religar os motores abaixo de 55 mil pés.
O feito consolidou a reputação do F-15 como um caça dotado de excepcional relação peso-potência. O avião, entretanto, não tinha condições de combate naquela configuração: era uma máquina especialmente aliviada, abastecida apenas com o combustível necessário e conduzida segundo um perfil cuidadosamente calculado.
A resposta soviética
A União Soviética respondeu mais de dez anos depois, utilizando um exemplar de pré-produção do Sukhoi Su-27. Conhecido originalmente como T10-15, o avião foi modificado em 1986 e recebeu a designação P-42, que ajudava a ocultar sua relação com o então relativamente secreto programa do Flanker.
Segundo relatos atribuídos ao projetista Mikhail Simonov, o nome fazia referência ao ponto de virada alcançado pelo Exército Vermelho em Stalingrado, em novembro de 1942. A escolha ajudava a transformar o avião em um símbolo da resposta soviética ao desafio lançado pelo Streak Eagle.
Assim como o F-15 norte-americano, o P-42 perdeu praticamente tudo o que não fosse essencial para voar. O radar, os sistemas de armas e grande parte dos equipamentos eletrônicos foram removidos. O nariz foi substituído por uma estrutura metálica mais leve, as superfícies verticais foram reduzidas e a instalação do paraquedas de frenagem foi eliminada.
O resultado foi uma massa de decolagem de aproximadamente 14.100 quilos, cerca de duas toneladas abaixo do peso vazio de um Su-27 operacional. Os motores AL-31F foram preparados para produzir aproximadamente 13.600 kgf de empuxo cada — mais do que as unidades normais de série.
O empuxo combinado era superior ao peso do avião. Como no caso do Streak Eagle, os freios não conseguiam segurá-lo com os motores na potência máxima. O P-42 precisava ser preso por um cabo a um veículo blindado, sendo liberado somente depois de as turbinas atingirem o regime desejado.
Pugachev e Sadovnikov atacam as marcas
Em 27 de outubro de 1986, Viktor Pugachev levou o P-42 a três mil metros em 25,37 segundos. Poucas semanas depois, em 15 de novembro, atingiu seis mil metros em 37,05 segundos.
Nikolai Sadovnikov assumiu os voos seguintes. Em 10 de março de 1987, chegou a nove mil metros em 44,18 segundos e a 12 mil metros em 55,54 segundos. Em 23 de março de 1988, completou a subida até 15 mil metros em apenas 1 minuto e 10 segundos.
O programa é frequentemente creditado com 27 recordes mundiais. Isso não significa que o P-42 tenha quebrado 27 marcas diferentes do F-15. O número inclui resultados registrados em diferentes classes de peso, categorias de carga e subdivisões do código esportivo da Federação Aeronáutica Internacional, a FAI.

O MiG-25 entrou na disputa antes do P-42
As marcas mais altas do Streak Eagle tiveram vida curta. Em 17 de maio de 1975, apenas três meses depois da campanha norte-americana, uma versão especialmente preparada do MiG-25, registrada como Ye-266M, recuperou dois recordes.
Alexandr Fedotov chegou a 25 mil metros em 154,20 segundos, superando o F-15 por 6,82 segundos. No mesmo dia, Pyotr Ostapenko alcançou 30 mil metros em 189,85 segundos, quase 18 segundos abaixo da marca norte-americana, segundo a cronologia da enciclopédia russa Test Pilots.
O Ye-266M também atingiu 35 mil metros em 251,7 segundos. Dois anos depois, em agosto de 1977, Fedotov chegou a 37.650 metros, estabelecendo um recorde absoluto de altitude para aviões de decolagem convencional que continua reconhecido pela FAI.
Assim, quando o P-42 iniciou sua campanha, os recordes de 25 mil e 30 mil metros já não pertenciam ao Streak Eagle. O objetivo soviético com o derivado do Su-27 concentrou-se principalmente nas altitudes entre três mil e 15 mil metros.
Quais marcas ainda permanecem?
Até setembro de 2026, os resultados do P-42 para três mil, seis mil, nove mil, 12 mil e 15 mil metros continuam sem ser superados na subclasse FAI C-1h, destinada a aviões terrestres com massa entre 12 mil e 16 mil quilos e, nesses casos, equipados com motores turbojato.
A FAI ainda apresenta como atuais os recordes de três mil metros, seis mil metros, 12 mil metros e 15 mil metros. A marca de nove mil metros de Sadovnikov também permanece reconhecida, conforme o registro baseado na homologação da FAI publicado pelo Guinness World Records.
No caso do F-15, os resultados até 15 mil metros foram efetivamente superados pelo P-42. As marcas de 25 mil e 30 mil metros caíram diante do Ye-266M em 1975. Restou o tempo de 122,94 segundos para 20 mil metros, que não aparece superado por outro avião em uma tentativa homologada comparável nas cronologias consultadas.
Isso não significa, porém, que o Streak Eagle ainda figure como detentor de um recorde ativo. A antiga categoria C-1 na qual várias dessas marcas eram registradas foi modificada ou descontinuada por alterações no código esportivo. O resultado de 20 mil metros deve ser descrito como uma marca histórica numericamente não superada, e não como um recorde aberto segundo a regulamentação atual.
O fato de as marcas continuarem de pé não significa que os caças modernos sejam incapazes de superá-las. Uma tentativa oficial exige uma aeronave dedicada, observadores, instrumentos certificados, documentação e homologação. O custo e o risco oferecem pouco retorno militar em uma época na qual furtividade, sensores, guerra eletrônica, alcance e integração em rede valem mais do que uma corrida vertical isolada.
O Streak Eagle foi preservado pelo Museu Nacional da Força Aérea dos Estados Unidos e voltou a ser exibido após uma restauração concluída em 2024. O P-42 permanece sobretudo nos livros de recordes, onde seus tempos resistem há quase quatro décadas.
A longevidade dessas marcas também revela uma mudança de prioridades. F-15, MiG-25 e Su-27 nasceram em uma era na qual velocidade, teto e razão de subida eram demonstrações centrais de poder aéreo. Hoje, a vitória tende a pertencer ao avião que detecta, decide e atira primeiro — ainda que nunca tente chegar aos 15 mil metros em apenas 70 segundos.■





Nenhum comentário:
Postar um comentário