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terça-feira, 22 de setembro de 2026

Pulqui II: o caça a jato que levou a indústria argentina à fronteira da tecnologia

 IAe-33 Pulqui II

Desenvolvido no início da Guerra Fria por uma equipe liderada por Kurt Tank e engenheiros argentinos, o IAe-33 Pulqui II chegou perto da produção em série, mas foi vencido por acidentes, limitações industriais e mudanças políticas

No início da década de 1950, enquanto Estados Unidos, União Soviética e potências europeias disputavam a liderança na aviação a jato, a Argentina colocava em voo um caça de asas enflechadas projetado e construído no país. Era o IAe-33 Pulqui II, um dos programas aeronáuticos mais ambiciosos já conduzidos na América Latina.

A aeronave nasceu durante o governo de Juan Domingo Perón, dentro de uma política que buscava ampliar a autonomia industrial e tecnológica argentina. Mais do que um protótipo militar, o Pulqui II tornou-se símbolo de um projeto nacional que pretendia inserir o país no restrito grupo de fabricantes de aviões de combate modernos.

Do Pulqui I a um novo caça

O ponto de partida foi o IAe-27 Pulqui I, que voou pela primeira vez em 1947 e entrou para a história como o primeiro avião a jato projetado e construído na América Latina. Seu desempenho limitado, porém, mostrou que seria necessário desenvolver uma aeronave inteiramente nova.

No fim de 1947, o Instituto Aerotécnico de Córdoba iniciou os estudos do IAe-33. O projeto reuniu o trabalho dos engenheiros argentinos Norberto Morchio e Humberto Ricciardi com a experiência de uma equipe alemã liderada por Kurt Tank, antigo diretor técnico da Focke-Wulf e projetista do célebre caça Fw 190.

Segundo a Fábrica Argentina de Aviones, o desenho resultou da integração dos estudos argentinos com os conhecimentos trazidos pelo grupo de Tank. A configuração também incorporava conceitos explorados no Focke-Wulf Ta 183, projeto alemão de caça a jato que não chegou a voar antes do fim da Segunda Guerra Mundial.

Focke-Wulf Ta 183

Asas enflechadas e motor britânico

O Pulqui II era um monoplano inteiramente metálico, com asas altas enflechadas em aproximadamente 40 graus, cauda em T e cabine pressurizada. O piloto ficava sob uma cobertura transparente do tipo bolha, que oferecia boa visibilidade.

A propulsão era fornecida por um turbojato britânico Rolls-Royce Nene II, instalado na parte traseira da fuselagem. A entrada de ar ficava no nariz e o duto passava sob a cabine até alcançar o motor.

A configuração madura previa quatro canhões Hispano-Suiza de 20 milímetros. Dados divulgados pela FAdeA atribuem ao avião velocidade máxima próxima de 1.050 km/h, teto de serviço de 11.600 metros e autonomia de aproximadamente duas horas e vinte minutos — números competitivos para um caça experimental do início dos anos 1950.

Embora frequentemente comparado ao norte-americano F-86 Sabre e ao soviético MiG-15, o Pulqui II ainda se encontrava em desenvolvimento. Os rivais já contavam com estruturas industriais mais robustas, extensos programas de ensaios e rápida incorporação operacional.

O primeiro voo

O primeiro exemplar foi construído para ensaios estáticos e não recebeu motor. O segundo protótipo tornou-se, portanto, o primeiro Pulqui II efetivamente capaz de voar.

A cronologia adotada pela FAdeA e pelos registros atuais do governo argentino aponta que o primeiro voo ocorreu em 16 de junho de 1950, com o capitão Edmundo Osvaldo Weiss nos comandos. O ensaio inicial durou cerca de meia hora e revelou as características básicas da aeronave, além de dificuldades de estabilidade e comportamento durante o pouso.

O voo marcou a entrada da Argentina no pequeno grupo de países capazes de desenvolver um caça a jato de asas enflechadas. O programa também demonstrava o nível técnico alcançado pela Fábrica Militar de Aviones e pelo Instituto Aerotécnico de Córdoba.

A apresentação diante de Perón

Em 8 de fevereiro de 1951, o Pulqui II foi apresentado oficialmente no Aeroparque de Buenos Aires. Kurt Tank pilotou a aeronave no voo desde Córdoba e realizou uma demonstração diante do presidente Juan Domingo Perón, de autoridades militares, diplomatas e milhares de espectadores.

O caça efetuou passagens em alta e baixa velocidade, subiu a grande altitude e realizou manobras acrobáticas antes de pousar diante da tribuna presidencial. A apresentação transformou o avião em uma vitrine pública da capacidade industrial argentina.

O Museu Nacional de Aeronáutica da Argentina registra que Tank elogiou a precisão e a qualidade do trabalho realizado pelos técnicos e operários argentinos. A cerimônia, amplamente divulgada pela imprensa da época, deu ao programa uma dimensão política comparável à sua importância tecnológica.

Acidentes expuseram problemas do projeto

O desenvolvimento, entretanto, mostrou-se difícil. O avião apresentava instabilidade lateral, comportamento perigoso próximo à perda de sustentação e características de pouso que exigiam sucessivas modificações aerodinâmicas.

Em 1951, o primeiro protótipo voador foi destruído depois que uma falha estrutural provocou a separação de uma asa. O piloto Ariel Vedania Mannuwal morreu no acidente. A investigação apontou um problema no sistema de fixação da asa à fuselagem, componente cuja fabricação havia sido condicionada pelas limitações do parque industrial disponível.

Um terceiro protótipo incorporou alterações no leme e em outras superfícies de controle. Em 9 de outubro de 1952, porém, o piloto de provas alemão Otto Behrens morreu quando a aeronave entrou em perda durante a preparação de uma demonstração em baixa altitude.

O segundo acidente fatal abalou a equipe e atrasou a transição para uma possível série de produção. Um estudo acadêmico publicado pela Universidad Nacional de San Martín aponta que, depois da perda de Behrens, parte dos engenheiros passou a se dedicar a outros programas, entre eles o bimotor IA-35 Huanquero.

Um quarto protótipo mais maduro

Apesar das perdas, o programa prosseguiu. O quarto protótipo, concluído em 1953, recebeu novas alterações aerodinâmicas, maior capacidade de combustível, cabine pressurizada e o armamento definitivo de quatro canhões de 20 milímetros.

As mudanças reduziram parte dos problemas de estabilidade e ampliaram o raio de ação. Naquele estágio, uma pequena série poderia ter sido tecnicamente possível, mas a conjuntura econômica e política já era muito diferente daquela que dera origem ao projeto.

A indústria estatal argentina havia passado a dividir recursos e pessoal com a fabricação de automóveis, caminhões, tratores e motocicletas. Ao mesmo tempo, as sucessivas modificações do caça, a produção artesanal dos protótipos e a falta de equipamentos industriais avançados aumentavam custos e prazos.

A queda de Perón e a saída de Kurt Tank

A derrubada de Perón, em setembro de 1955, retirou do Pulqui II seu principal apoio político. Associado à propaganda industrial do governo deposto, o programa passou a enfrentar resistência dentro da nova administração.

Kurt Tank e parte de sua equipe deixaram a Argentina. O engenheiro alemão seguiu para a Índia, onde participaria do desenvolvimento do caça supersônico HAL HF-24 Marut. A dispersão dos especialistas enfraqueceu ainda mais a capacidade de concluir o projeto argentino.

A Força Aérea precisava substituir seus envelhecidos Gloster Meteor e avaliava alternativas que pudessem ser incorporadas rapidamente. A possibilidade de receber caças F-86F Sabre usados dos Estados Unidos oferecia uma solução de menor risco, com uma aeronave já testada em combate e apoiada por uma cadeia logística estabelecida.

A última tentativa

Em 1957, ainda houve uma tentativa de retomar o programa. Um quinto protótipo, conhecido como Pulqui IIe, foi concluído em 1959 com maior capacidade de combustível e melhorias destinadas a corrigir as deficiências identificadas nos aparelhos anteriores.

A aeronave realizou o primeiro voo em setembro daquele ano, mas completou apenas uma curta campanha de ensaios. Quase uma década após o início do projeto, o avanço internacional dos caças supersônicos tornara o conceito do Pulqui II menos competitivo.

A Argentina acabou recebendo 28 F-86F-40 Sabre em 1960. A decisão encerrou definitivamente as perspectivas de produção em série do IAe-33.

Um fracasso industrial — mas não tecnológico

O fim do Pulqui II não pode ser explicado por uma única causa. Acidentes, dificuldades aerodinâmicas, limitações de fabricação, mudanças nas prioridades industriais, conflitos entre a fábrica e a Força Aérea, instabilidade econômica e a ruptura política de 1955 contribuíram para o desfecho.

O programa não entregou o caça operacional pretendido, mas formou engenheiros, pilotos de provas e técnicos, além de ampliar o conhecimento argentino sobre aerodinâmica transônica, estruturas metálicas, pressurização e propulsão a jato.

O único exemplar sobrevivente, o quinto protótipo, está preservado no Museu Nacional de Aeronáutica, em Morón. Em 2015, o governo argentino declarou o Pulqui I e o Pulqui II bens de interesse histórico nacional, reconhecendo seu lugar no patrimônio tecnológico do país. Segundo o Ministério da Defesa argentino, as duas aeronaves representam uma etapa decisiva da indústria aeronáutica nacional.

Mesmo sem entrar em serviço, o IAe-33 permanece como uma das experiências mais ousadas da aviação latino-americana. Sua história mostra tanto o potencial alcançado pela Argentina no pós-guerra quanto a dificuldade de transformar um protótipo avançado em um sistema de armas produzido, mantido e aperfeiçoado ao longo do tempo.

NOTA DA REDAÇÃO: a FAdeA, o Ministério da Defesa argentino e a cronologia principal do estudo acadêmico consultado registram o primeiro voo em 16 de junho de 1950. Algumas obras e publicações históricas citam 27 de junho do mesmo ano.

Poder Aéreo • Ficha técnica

IAe-33 Pulqui II

Caça/interceptador experimental argentino de asas enflechadas
CaracterísticaDados
Identificação e programa
País de origemArgentina
FunçãoCaça/interceptador experimental a jato
FabricanteInstituto Aerotécnico / Fábrica Militar de Aviones (FMA), Córdoba
Equipe de projetoKurt Tank, Norberto Morchio, Humberto Ricciardi e equipes argentina e alemã
Primeiro voo16 de junho de 1950, com o capitão Edmundo Osvaldo Weiss
Apresentação pública8 de fevereiro de 1951, no Aeroparque de Buenos Aires
Exemplares construídos5 protótipos — 1 para ensaios estáticos e 4 aeronaves de voo
Dimensões e configuração
Tripulação1 piloto
Comprimento11,68 m
Envergadura10,60 m
Altura3,50 m
Área alar25,1 m²
Configuração aerodinâmicaAsas altas com enflechamento de 40°, diedro negativo e empenagem em T
Pesos, combustível e propulsão
Peso vazio3.736 kg
Peso bruto de referência6.793 kg
Capacidade interna de combustívelAté 3.125 litros nas configurações mais desenvolvidas
Motor1 turbojato Rolls-Royce Nene II, de compressor centrífugo
Empuxo22,2 kN — aproximadamente 2.264 kgf
Desempenho estimado / demonstrado
Velocidade máximaAté 1.080 km/h a 6.000 m
Velocidade de cruzeiroAproximadamente 954 km/h
AlcanceAté 3.090 km nas configurações de maior capacidade de combustível
AutonomiaAté 2 h 50 min
Teto de serviçoAté 15.000 m
Razão de subida25,5 m/s — aproximadamente 1.530 m/min
Armamento e sistemas
Armamento4 canhões Hispano-Suiza HS.404/Mk V de 20 mm, instalados nos protótipos mais avançados
CabineMonoposto, cobertura tipo bolha; pressurização incorporada no protótipo nº 4
Assento ejetávelMartin-Baker Mk 1 nos protótipos de voo iniciais
Estrutura e trem de pousoConstrução metálica e trem de pouso triciclo retrátil
Situação do programa
ResultadoPrograma encerrado em 1960, sem produção em série
Exemplar preservadoProtótipo nº 5, no Museu Nacional de Aeronáutica, em Morón, Argentina

Nota técnica: como o IAe-33 permaneceu em desenvolvimento e seus protótipos receberam sucessivas modificações, pesos, combustível e desempenho variam conforme a configuração e a fonte. A tabela utiliza os valores de referência mais difundidos para o terceiro e o quarto protótipos. A FAdeA publica, alternativamente, velocidade máxima de 1.050 km/h, teto de serviço de 11.600 m e autonomia de 2 h 20 min.

Fontes: FAdeA; Ministério da Defesa da Argentina; Museu Nacional de Aeronáutica; H-industri@ / UNSAM; dados técnicos de referência para os protótipos 3 e 4 compilados em Pioneers & Prototypes: Pulqui, Pulqui II and IA-37/48.

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