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segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Vinte anos em uma foto: a formação da RAF que mostrou o salto do Hurricane ao Lightning

 A formação da RAF que mostrou o salto do Hurricane ao Lightning - 1960

Em setembro de 1960, no 20º aniversário da Batalha da Grã-Bretanha, a RAF reuniu em formação seis caças que resumiam duas décadas de evolução do Fighter Command, do motor a pistão ao interceptador de Mach 2

A imagem é uma das mais conhecidas da história da Royal Air Force. O acervo do Imperial War Museum a descreve como uma frota montada especialmente para o 20º aniversário da Batalha da Grã-Bretanha, voando em escalão. De baixo para cima aparecem:

  • Hawker Hurricane IIc LF363 e o Supermarine Spitfire PR.XIX PM631, ambos do Battle of Britain Memorial Flight;
  • Gloster Meteor F.8 WL164;
  • Hawker Hunter FGA.9 XK136, do Esquadrão nº 74;
  • Gloster Javelin FAW.9 XH894, do Esquadrão nº 23;
  • English Electric Lightning F.1 XM137, do Air Fighting Development Squadron, do Central Fighter Establishment.

A intenção era mostrar, numa única fotografia, quanto a tecnologia havia transformado o Fighter Command em apenas vinte anos.

Hawker Hurricane IIc: o caça que carregou a batalha

Hawker Hurricane IIc LF363 – Foto: Darren Harbar

O primeiro da fila é o avião que, na prática, sustentou a Batalha da Grã-Bretanha. Ofuscado pelo Spitfire no imaginário popular, o Hurricane infligiu 60% das perdas da Luftwaffe na campanha e lutou em todos os grandes teatros da Segunda Guerra. Quando a batalha começou, em 10 de julho de 1940, equipava 36 esquadrões de primeira linha do Fighter Command, contra 19 de Spitfire. Sua construção mais tradicional, com a fuselagem traseira revestida de tela, facilitava os reparos: aviões danificados voltavam ao combate bem mais depressa que o Spitfire.

A versão IIc da foto representa a maturidade do projeto de Sydney Camm, com o motor Rolls-Royce Merlin XX, de cerca de 1.280 hp, e quatro canhões de 20 mm no lugar das oito metralhadoras .303 do Mk I. Até o fim da produção, em julho de 1944, foram concluídas 14.487 unidades na Grã-Bretanha e no Canadá. O exemplar da formação, LF363, foi o último Hurricane a entrar em serviço na RAF.

Supermarine Spitfire PR.XIX: o mais rápido dos Spitfires

Spitfire PR.XIX PM631 – Foto: Max Broughton

O Spitfire da foto não é o caça de 1940, mas a última e mais refinada versão de reconhecimento fotográfico da família. Desarmado, o PR.XIX entrou em serviço em 1944, com cabine totalmente pressurizada para missões em grande altitude e motor Rolls-Royce Griffon. Foi o mais veloz de todos os Spitfires, com 460 mph (740 km/h), mais de 100 mph acima do Mk I original. Foram construídos 225 exemplares.

O PR.XIX também fechou a carreira operacional do Spitfire. A última missão de combate de um Spitfire da RAF foi feita em 1º de abril de 1954 pelo PS888, do Esquadrão nº 81, que decolou de Seletar, em Cingapura, para reconhecer Johore, na atual Malásia, durante a Emergência Malaia. O PM631 da formação é o avião há mais tempo em serviço no Battle of Britain Memorial Flight. Considerando todas as versões, a RAF contabiliza 20.334 Spitfires produzidos.

Gloster Meteor F.8: o primeiro jato

Gloster Meteor F.8

O Meteor foi o primeiro jato operacional da RAF, e seus primeiros êxitos em combate foram contra bombas voadoras V-1, em 4 de agosto de 1944. A versão F.8 foi um redesenho profundo do F.4. O protótipo voou em 12 de outubro de 1948 e as entregas à RAF começaram em agosto de 1949. As novidades incluíam:

  • fuselagem alongada em 76 cm;
  • motores Rolls-Royce Derwent 8, de 3.600 lb de empuxo cada;
  • assento ejetável Martin-Baker;
  • capacidade para duas bombas de 450 kg ou 16 foguetes.

O F.8 tinha quatro canhões Hispano de 20 mm e velocidade máxima entre 950 e 965 km/h, conforme a fonte. A Coreia, em 1951, mostrou seus limites diante do MiG-15, que era mais rápido, subia melhor e combatia melhor em altitude. O Meteor acabou deslocado para missões de ataque ao solo.

A contagem de produção varia. Gloster e Armstrong Whitworth construíram 1.183 F.8. Incluindo a produção sob licença na Holanda e na Bélgica, o total sobe para 1.522 segundo a Real Força Aérea Australiana, ou 1.550 segundo outras fontes. Somadas todas as versões, foram 3.947 Meteors.

A Força Aérea Brasileira (FAB) recebeu 70 Meteors em troca de 15 mil toneladas de algodão, num acordo de 1952. Foram os primeiros caças a jato da Força Aérea Brasileira.

Hawker Hunter FGA.9: de caça a avião de ataque

Hawker Hunter FGA.9

O Hunter é considerado um dos mais bem resolvidos caças de sua geração. Na versão F.6, que equipou 19 esquadrões da RAF, foram construídas 383 unidades, e toda a reequipagem estava concluída no fim de 1958. O motor Rolls-Royce Avon 207, de cerca de 10.145 lbf, dava ao caça Mach 0,94. O armamento era um conjunto removível de quatro canhões ADEN de 30 mm, além de até cerca de 3.350 kg de cargas externas.

O FGA.9 nasceu da conversão de F.6 excedentes para ataque ao solo, inicialmente para uso exclusivo no Oriente Médio. As principais mudanças foram:

  • paraquedas de frenagem;
  • ventilação reforçada da cabine;
  • mais oxigênio para o piloto;
  • tanques de 230 galões nos pilones internos.

Ao todo, 129 FGA.9 serviram na RAF, 36 deles em conversões provisórias. A produção total do Hunter chegou a 1.972 unidades, e o caça teve uma longevidade notável: o Líbano o reativou em 2008 e novamente em 2014, 63 anos depois do primeiro voo. O exemplar da foto pertencia ao Esquadrão nº 74, a mesma unidade que naquele verão de 1960 recebia os primeiros Lightning da RAF.

Gloster Javelin FAW.9: o interceptador para todo tempo

Gloster Javelin FAW.9

O Javelin respondia a um requisito do Ministério do Ar de 1947 para um caça noturno de alto desempenho. Com asa em delta e cauda em T, o protótipo voou em 26 de novembro de 1951. O avião entrou em serviço em fevereiro de 1956 e foi retirado em abril de 1968, depois de equipar vinte esquadrões.

O FAW.9 era o estágio final da evolução. Movido por dois Armstrong Siddeley Sapphire 7R com pós-combustão, de 55 kN cada com reaquecimento, tinha tripulação de dois, peso máximo de decolagem de 19.579 kg, quatro canhões ADEN de 30 mm e até quatro mísseis Firestreak. Não era um avião novo de fábrica: 118 FAW.7 receberam a asa revisada e os motores com pós-combustão do Mk 8. Destes, 44 ganharam sondas de reabastecimento em voo, e 40 foram depois adaptados para tanques subalares como FAW.9R. A pressa do programa gerou uma curiosidade: os últimos 80 FAW.7 foram da fábrica direto para a armazenagem e só voaram depois de refeitos como FAW.9.

A produção total foi de 435 aviões, 302 pela Gloster e 133 pela Armstrong Whitworth. Seu único “abate” ocorreu durante o Confronto com a Indonésia, em 1964, quando um C-130 indonésio caiu ao tentar escapar da interceptação por um Javelin.

English Electric Lightning F.1: Mach 2

English Electric Lightning F.1

No topo da formação estava o avião que simbolizava a nova era. Os dois motores Rolls-Royce Avon, empilhados verticalmente, davam ao Lightning a seção frontal de um monomotor com o empuxo de um bimotor. O protótipo P.1B tornou-se, em 25 de novembro de 1958, o primeiro avião britânico a atingir Mach 2.

O F.1 foi a primeira versão de produção. Tinha radar Ferranti AI.23 Airpass, dois mísseis Firestreak e dois canhões ADEN de 30 mm no nariz. O primeiro F.1 voou em 30 de outubro de 1959, e apenas 19 foram voados; o vigésimo serviu como célula de ensaios estáticos. A frota era vista como solução provisória até a chegada do F.1A.

O Air Fighting Development Squadron recebeu seu primeiro F.1 em 25 de maio de 1960, e o XM137 da foto de abertura era um dos seus cinco. O Esquadrão nº 74 recebeu o primeiro Lightning em 29 de junho de 1960. A capacidade de subida permitia interceptar aviões espiões U-2 a até 65.000 pés sob controle de terra. Ao todo, 337 Lightnings foram construídos, incluindo protótipos, e o tipo voou na RAF até 1988.

O salto em números

Em vinte anos, o Fighter Command passou do Hurricane com motor a pistão, cuja velocidade ficava na casa dos 540 km/h, ao Lightning, capaz de ultrapassar o dobro da velocidade do som. Passou também de caças de canhão e metralhadora, guiados por radar de terra e contato visual, a um interceptador com radar próprio e mísseis guiados por infravermelho. No meio do caminho, o Meteor, o Hunter e o Javelin representam as fases intermediárias: o primeiro jato, a asa enflechada e o interceptador para todo tempo com dois tripulantes.

Os preços dos seis aviões mostram como a aviação de caça se tornou mais cara entre a Segunda Guerra Mundial e o início da era supersônica. Em lotes de 1942, a Hawker recebia cerca de £4,2 mil a £4,5 mil por Hurricane; uma década depois, o Brasil pagou £42.810 por cada Meteor F.8, incluindo o pacote de sobressalentes, treinamento etc. Os contratos britânicos registram £53.500 por célula de Hunter em 1955, £125 mil por Javelin em 1957 e £199 mil por Lightning F.1 em 1959. A progressão acompanhou a chegada dos motores a jato, radares, mísseis e desempenho supersônico.

Os dois caças a pistão da foto de 1960 sobreviveram aos quatro jatos que voavam acima deles. Em 19 de setembro de 2025, no 85º aniversário da Batalha da Grã-Bretanha, o Hurricane LF363 e o Spitfire PR.XIX PM631 voltaram a voar juntos em formação pelo Battle of Britain Memorial Flight, 65 anos depois daquela fotografia.■

PODER AÉREO · QUADRO COMPARATIVO

Os seis caças da formação

Características das versões indicadas e valores nominais em libras esterlinas da época

AeronaveMotorVelocidade máximaArmamento principalProduçãoPreço de época e abrangência
Hawker Hurricane IIc1 × Merlin XX
≈1.280 hp
≈545 km/h4 canhões Hispano de 20 mm≈14.483 Hurricane de todas as versões£4.220–£4.540
Lotes da Hawker em 1942, sem discriminação do IIc; preço pago ao fabricante, não de avião completo. [1]
Supermarine Spitfire PR.XIX1 × Griffon 65/66≈740 km/hDesarmado; câmeras de reconhecimento225 PR.XIX; ≈20,3 mil Spitfire de todas as versõesNão localizado para o PR.XIX
Referência anterior: £9.700 por célula de Spitfire em contrato de 1940; não é preço do PR.XIX. [2]
Gloster Meteor F.82 × Derwent 8
≈3.500 lbf cada
≈960 km/h4 canhões de 20 mm1.183 F.8; 3.875 Meteor de todas as versões, segundo a BAE Systems£42.810 por F.8
Compra brasileira de 60 F.8 em 1952; itens de apoio integravam o acordo mais amplo. [3]
Hawker Hunter FGA.91 × Avon 207
≈10.145 lbf
Mach 0,944 canhões ADEN de 30 mm; bombas e foguetes128 conversões de F.6 para FGA.9 na RAF, segundo a BAE Systems; ≈1.972 Hunter de todas as versõesConversão: não localizada
Referência da família: £53.500 por célula de Hunter em contrato de 1955; não é o custo da conversão. [4]
Gloster Javelin FAW.92 × Sapphire Sa.7R
≈55 kN cada, com pós-combustão
Mach 0,932 canhões ADEN de 30 mm e até 4 mísseis Firestreak118 conversões de FAW.7; 435 Javelin de todas as versõesConversão: não localizada
Referência da família: £125.000 por célula de Javelin em contrato de 1957; não é preço do FAW.9. [4, 5]
English Electric Lightning F.12 × Avon com pós-combustão, sobrepostosMach 1,7
limite do F.1
2 canhões ADEN de 30 mm e 2 mísseis Firestreak20 F.1 construídos; 337 Lightning de todas as versões£199.000 por célula
Contrato de abril de 1959 para aeronaves Mark 1; valor não equivale ao custo operacional completo. [4]

Como 

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