
Em 1981, Ronald Reagan abriu uma exceção na política americana de não vender armas avançadas à região para equipar Caracas contra o “Triângulo Vermelho” do Caribe, formado por Cuba, Nicarágua e Granada. Quatro décadas depois, os Fighting Falcons venezuelanos sobrevivem com dificuldade, sob embargo
Em 16 de novembro de 1983, menos de um mês depois da invasão americana de Granada, os seis primeiros F-16 da Força Aérea Venezuelana (FAV) pousaram no país: três F-16A monopostos e três F-16B bipostos. A Venezuela se tornou o primeiro país da América Latina a receber o caça, destinado ao recém-criado Grupo Aéreo de Caza 16, na Base Aérea El Libertador.
A chegada dos Fighting Falcons foi resultado de uma decisão política em Washington, como reconstitui o pesquisador venezuelano Delso López Lugo num artigo publicado pelo site FAV-Club. A história ajuda a entender um capítulo pouco lembrado da Guerra Fria no Caribe.
A exceção de Reagan
Em 1977, a Diretiva Presidencial 13 (PD-13), do governo Jimmy Carter, havia bloqueado a venda de tecnologia militar avançada para a América Latina. Durante duas décadas, a política americana foi de “presunção de negação” para exportações de armas à região. Até que a política mudasse, com Bill Clinton, em agosto de 1997, a venda de 24 F-16A/B à Venezuela autorizada pelo governo Reagan foi a única exceção.
O processo foi rápido. Reagan aprovou a venda em julho de 1981, e a FAV pediu ao Departamento de Defesa uma carta de oferta para 24 aviões, 18 F-16A e 6 F-16B. O Senado aprovou formalmente o negócio em 5 de fevereiro de 1982. Em maio, Caracas assinou o contrato dos 24 aviões Block 15, pelo programa de Vendas Militares ao Exterior (FMS) batizado de Peace Delta.
Segundo López Lugo, o pacote somou US$ 615 milhões, com peças de reposição e assistência técnica por um ano e meio, o que dá um custo médio de US$ 25,62 milhões por avião. Antes da escolha, uma comissão técnica da FAV avaliou o israelense Kfir C.2, o francês Mirage 50 e o F-16, e recomendou o caça americano.
O “Triângulo Vermelho”

O pano de fundo era a disputa por influência no Caribe. Washington se preocupava com a modernização da Força Aérea cubana desde 1978, quando a União Soviética entregou a Havana os primeiros MiG-23. Num documento da época, o governo Carter registrou que poderia haver 12 MiG-23 em Cuba e que não se sabia se os modelos de ataque ao solo eram da versão de exportação ou de uma versão usada pelos soviéticos em missões nucleares. Moscou garantiu que os aviões não podiam levar armas nucleares, e o governo Carter aceitou a garantia.
A segunda leva veio no início do governo Reagan. Em 10 de janeiro de 1982, um mês antes da votação no Senado sobre os F-16 venezuelanos, o Departamento de Estado protestou formalmente junto ao embaixador soviético em Washington contra a entrega de mais MiG-23 ou MiG-27 a Cuba. A diplomacia americana via essas entregas como parte de uma escalada de transferências de armas na região, que incluía o que chamava de reforço militar maciço e injustificado da Nicarágua sandinista.
Ao longo da década, a frota cubana cresceu. Segundo o livro Cuban MiGs, dos brasileiros Hélio Higuchi e Paulo Roberto Bastos Jr., Cuba recebeu 80 MiG-23 em vários lotes até 1989. Segundo López Lugo, Havana recebeu ainda 24 MiG-23MF de caça em 1984, um lote do MiG-23ML em 1985 e apenas oito MiG-29 entre 1989 e 1990, porque o colapso soviético interrompeu as entregas. A isso se somavam os destacamentos frequentes de aviões soviéticos de reconhecimento Tu-95RT e antissubmarino Tu-142M na ilha.
Granada completava o triângulo. Com ajuda cubana, a ilha construía uma pista de 2.700 metros, oficialmente para o turismo. Washington temia que ela recebesse cargueiros soviéticos An-12, An-22 e An-124 e servisse de base para caças com alcance sobre a Venezuela e seus campos de petróleo. A preocupação era tanta que a FAV enviou um Canberra PR.83 para fotografar a obra em grande altitude.
Os motivos de Caracas
Para a Venezuela, a ameaça tinha outra face. O presidente Luis Herrera Campins, democrata-cristão e adversário ideológico de Fidel Castro, havia retomado com força a reivindicação venezuelana sobre o Essequibo, território disputado com a Guiana, que contava com o apoio de Havana. Em outubro de 1981, o governo cubano chegou a acusar a Venezuela de “expansionista”.
A compra não foi consensual. Na Venezuela, críticos falavam numa aquisição “ideologizada” que aumentaria a dependência em relação aos EUA. Em Washington, opositores temiam uma corrida armamentista e argumentavam que o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR) já protegia o país. O argumento perdeu força em 1982, quando o tratado se mostrou inútil na Guerra das Malvinas.
Os mais modernos da região
As entregas foram concluídas em 1985. Na época, os F-16 deixavam a FAV praticamente no mesmo nível das forças aéreas europeias que haviam adotado o caça, como Holanda, Dinamarca, Noruega e Bélgica. O pacote incluiu mísseis ar-ar Sidewinder AIM-9L e AIM-9P-4, guiados por infravermelho, mas não bombas guiadas para ataque ao solo.
Em 1988, os F-16 e os Mirage venezuelanos foram a Porto Rico para o exercício “Ojo Mágico”, com os A-7D Corsair II da Guarda Aérea Nacional local, treinando defesa aérea e interceptação.
O batismo de fogo veio dentro de casa. Na tentativa de golpe de novembro de 1992, militares rebeldes tomaram a Base El Libertador. Dois pilotos leais ao governo conseguiram decolar com F-16, derrubaram dois OV-10 Bronco e um Tucano e garantiram a superioridade aérea ao governo.
O declínio

Com o fim da Guerra Fria, o cenário mudou. A Força Aérea cubana entrou em decadência sem o financiamento soviético: em 2022, restavam apenas três MiG-29, 24 MiG-23 e 11 MiG-21, a maioria sem condições de voo.
A Venezuela também mudou de rumo. Em 1999, Hugo Chávez chegou ao poder, e as relações com os EUA se deterioraram. Segundo López Lugo, em 2005 Washington vetou a venda de peças de reposição para os F-16 venezuelanos, que passaram a operar sem apoio do fabricante e sem modernizações. Em julho de 2006, Caracas comprou 24 caças russos Su-30MK2. Dos 24 F-16 recebidos, três se perderam em acidentes (dois F-16A e um F-16B) e outros dois foram aposentados e hoje são peças de museu.
Os números do que ainda voa variam. Em dezembro de 2023, a imprensa especializada falava em 15 aviões em serviço. Em 2025, dois F-16 venezuelanos passaram em voo rasante sobre um contratorpedeiro da Marinha americana no Caribe. Em 3 de janeiro de 2026, durante a operação que capturou Nicolás Maduro, a Base El Libertador foi bombardeada pelos EUA. Segundo especialistas ouvidos pelo site Breaking Defense, os caças venezuelanos ficaram em sua maioria no solo, tanto pela surpresa do ataque quanto pelo desgaste acumulado da força.
A ironia final é que o caça que chegou para contrabalançar os MiG cubanos hoje voa ao lado de aviões russos e chineses na Aviação Militar Bolivariana. Em 18 de abril de 2026, o Grupo Aéreo de Caza 16 voltou a ter um F-16B em voo, o AMB-9583, depois de 15 anos e 10 meses parado. Com ele, a Venezuela mantém em operação um núcleo de cinco ou seis F-16A/B Block 15, 43 anos depois da chegada dos primeiros Fighting Falcons.


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