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domingo, 16 de agosto de 2026

FFA P-16: o caça-bombardeiro suíço que chegou à produção, mas foi cancelado antes de entrar em serviço

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Projetado para combater a partir de pequenas bases nos Alpes, o P-16 rompeu a barreira do som, demonstrou extraordinária capacidade de operação em pistas curtas e recebeu uma encomenda de 100 exemplares. Um acidente ocorrido apenas seis dias depois da aprovação da compra, porém, ajudou a encerrar uma das mais ambiciosas tentativas da Suíça de produzir seu próprio caça a jato

Na década de 1950, enquanto Estados Unidos, União Soviética, Reino Unido e França aceleravam a transição para aeronaves de combate a jato, um país muito menor decidiu tentar seguir o mesmo caminho com tecnologia própria. A Suíça, tradicionalmente neutra, pretendia desenvolver um avião especificamente adaptado às particularidades de sua estratégia defensiva e de seu território montanhoso.

O resultado foi o FFA P-16, um caça-bombardeiro desenvolvido pela Flug- und Fahrzeugwerke Altenrhein (FFA). O avião tornou-se a segunda grande tentativa suíça de produzir um caça a jato nacional, depois do experimental EFW N-20, e chegou muito mais perto de entrar em serviço.

Em março de 1958, o Parlamento suíço aprovou a aquisição de 100 P-16. Apenas seis dias depois, entretanto, uma aeronave de pré-série caiu no Lago de Constança. A combinação entre o acidente, disputas políticas e uma mudança na doutrina da Força Aérea acabaria condenando o programa.

Um caça concebido para a geografia da Suíça

A concepção do P-16 estava profundamente ligada à maneira como a Suíça imaginava uma eventual guerra em seu território. O país precisava de aeronaves capazes de operar dispersas, utilizando pistas relativamente pequenas e instalações protegidas, em vez de depender exclusivamente de grandes bases aéreas vulneráveis a ataques.

Essa exigência influenciou decisivamente o projeto. O P-16 seria antes de tudo um avião de ataque ao solo, capaz de apoiar as forças terrestres suíças e operar em ambientes onde pistas longas e amplas áreas de estacionamento não necessariamente estariam disponíveis.

A aeronave era um monomotor de construção metálica, com asa baixa praticamente reta e um conjunto bastante elaborado de dispositivos hipersustentadores. Krüger flaps no bordo de ataque, grandes superfícies no bordo de fuga e sistemas de frenagem foram empregados para proporcionar excelente desempenho em baixas velocidades.

Em determinadas configurações de teste, o P-16 podia completar a corrida de pouso em aproximadamente 300 a 330 metros, especialmente utilizando paraquedas de frenagem. Seu trem de pouso com seis rodas também permitia operações em superfícies menos preparadas, incluindo testes realizados em pistas de grama.

Era uma característica excepcional para um avião de combate de quase 12 toneladas de peso máximo de decolagem.

A indústria suíça queria construir seu próprio caça

O desenvolvimento ocorreu em Altenrhein, às margens do Lago de Constança. A fábrica tinha suas origens nas instalações suíças da Dornier e, em 1949, depois de passar ao controle suíço, tornou-se a Flug- und Fahrzeugwerke Altenrhein.

O projeto foi conduzido sob forte influência do engenheiro Hans Luzius Studer, em um ambiente no qual a Suíça ainda possuía ambições consideráveis de autonomia na indústria aeronáutica. O Air Force Center de Dübendorf destaca também a participação do ambiente acadêmico suíço, incluindo especialistas ligados à ETH, no desenvolvimento tecnológico associado ao programa.

Naqueles anos, isso não parecia uma ambição irrealista. Durante a Segunda Guerra Mundial e no pós-guerra imediato, a Suíça havia acumulado experiência na fabricação sob licença e no desenvolvimento de diferentes aeronaves militares. Em 1951, por exemplo, o Parlamento aprovou a produção sob licença de 150 de Havilland Venom, enquanto novas instalações militares e bases protegidas eram ampliadas.

O P-16 deveria representar o passo seguinte: deixar de simplesmente fabricar projetos estrangeiros e colocar em serviço uma aeronave de combate moderna concebida no próprio país.

Primeiro voo em 1955

O primeiro protótipo, identificado como J-3001, realizou seu voo inaugural em 25 de abril de 1955, pilotado por Hans Häfliger. Os primeiros ensaios confirmaram várias das qualidades esperadas do projeto, principalmente no comportamento em baixa altitude e nas operações em pistas curtas.

Quatro meses depois ocorreu o primeiro grande revés. Em 31 de agosto, uma falha no sistema de alimentação de combustível provocou a parada do motor durante um voo de testes. Sem condições de retornar à pista, Häfliger ejetou-se e o J-3001 caiu no Lago de Constança.

O piloto sobreviveu. Segundo a documentação compilada pelo Luftfahrtmuseum Hannover, o episódio representou também o primeiro emprego bem-sucedido de um assento ejetável na história da aviação suíça.

O acidente não interrompeu o programa. Um segundo protótipo, J-3002, assumiu a campanha de ensaios e acumulou centenas de voos, permitindo que os engenheiros avançassem na avaliação aerodinâmica, de armamentos e de desempenho.

O P-16 rompe a barreira do som

Em 15 de agosto de 1956, durante um voo em mergulho, o J-3002 ultrapassou pela primeira vez a velocidade do som. O feito demonstrava que, apesar da asa relativamente espessa e otimizada principalmente para desempenho em baixas velocidades, o pequeno fabricante suíço havia produzido uma aeronave capaz de penetrar no regime supersônico.

Isso não fazia do P-16 um caça supersônico de desempenho comparável aos interceptadores que começavam a aparecer naquele período. Sua principal missão continuava sendo o ataque ao solo, e as características da asa limitavam seu potencial em velocidades muito elevadas.

Os ensaios realizados pela Força Aérea Suíça entre fevereiro e março de 1957 produziram avaliações geralmente positivas quanto às características de voo, mas revelaram insuficiência de potência no motor utilizado pelos primeiros protótipos.

A resposta foi o P-16 Mk II de pré-série, equipado com o mais potente turbojato britânico Armstrong Siddeley Sapphire ASSa 7, desenvolvendo aproximadamente 49 kN de empuxo. O primeiro aparelho dessa configuração, J-3003, voou em 15 de abril de 1957.

Um avião fortemente armado

Para sua missão principal, o P-16 poderia transportar uma carga ofensiva considerável. A versão projetada para produção possuía dois canhões Hispano-Suiza de 30 mm, instalados internamente, além de pontos externos para bombas, foguetes, tanques e outras armas.

Uma característica especialmente incomum era um compartimento interno destinado a foguetes não guiados. O sistema permitiria transportar dezenas de foguetes de 68 mm dentro da fuselagem e dispará-los através de aberturas na parte inferior do avião.

O peso máximo de decolagem previsto para o Mk III era de aproximadamente 11,7 toneladas, enquanto a carga total de armamentos podia chegar a cerca de 2,6 toneladas. A velocidade máxima indicada para a configuração final era da ordem de 1.100 km/h em baixa altitude.

Não era, portanto, um simples demonstrador tecnológico. Em 1958, o P-16 havia evoluído para uma aeronave militar suficientemente madura para que o governo estivesse disposto a investir centenas de milhões de francos suíços em sua produção.

Suíça encomenda 100 P-16

Em 19 de março de 1958, o Parlamento aprovou formalmente a aquisição de 100 caça-bombardeiros P-16. Documentos preservados pelos Arquivos Federais indicam que a série de 100 aeronaves teria custo estimado em 407 milhões de francos suíços.

A decisão representava uma extraordinária vitória para a FFA. Uma produção dessa escala permitiria à Suíça manter uma capacidade própria de desenvolvimento de aeronaves de combate e criar uma base industrial que poderia, potencialmente, evoluir para projetos posteriores.

Mas a comemoração durou menos de uma semana.

Seis dias depois, outro P-16 cai no Lago de Constança

Em 25 de março de 1958, apenas seis dias depois da decisão parlamentar, o J-3003 aproximava-se para pouso quando sofreu um grave problema no sistema hidráulico de controle. O piloto não conseguiu recuperar a aeronave a tempo e precisou utilizar o assento ejetável.

O segundo P-16 perdido também caiu no Lago de Constança, próximo de Rorschach. Novamente o piloto sobreviveu, mas, politicamente, o impacto do acidente foi devastador.

O problema técnico poderia ser corrigido. As aeronaves construídas posteriormente receberiam sistemas de controle revisados e maior redundância hidráulica. Contudo, o segundo acidente ofereceu aos opositores do programa argumentos suficientes para questionar a continuidade da encomenda.

Em 2 de junho de 1958, o Conselho Federal cancelou a aquisição dos 100 aviões. A cronologia oficial do Air Force Center registra o episódio como o encerramento da encomenda aprovada pouco mais de dois meses antes.

Os acidentes contam apenas parte da história

Durante muito tempo, a narrativa mais simples atribuiu o fim do P-16 aos acidentes. Estudos posteriores, entretanto, indicam que a questão era consideravelmente mais complexa.

Em uma análise histórica produzida em 2006 no U.S. Army Command and General Staff College, o tenente-coronel suíço Matthias F. Sartorius concluiu que o P-16 também foi atingido por uma mudança na concepção suíça de guerra aérea.

Quando o projeto havia sido concebido, o apoio aéreo às forças terrestres e a defesa do território suíço ocupavam posição central. No final dos anos 1950, entretanto, conceitos da OTAN começaram a exercer maior influência, aumentando a importância de missões de superioridade aérea e ataques além das fronteiras suíças.

A possibilidade de que futuras aeronaves suíças fossem capazes de participar de missões relacionadas a armas nucleares também passou a integrar as discussões estratégicas. O P-16 havia sido concebido para outro cenário: combate convencional, operações em baixa altitude e apoio às forças terrestres dentro de um sistema defensivo territorial.

Nessa interpretação, o acidente de março de 1958 foi menos a causa única do cancelamento do que o acontecimento que tornou politicamente possível abandonar um programa cuja adequação à nova doutrina já estava sendo questionada.

Hunter e, depois, Mirage

O fim do P-16 também ocorreu quando a Suíça aumentava rapidamente suas compras de aeronaves estrangeiras. Em janeiro de 1958, antes mesmo da aprovação definitiva da encomenda do P-16, o Parlamento já havia autorizado 313 milhões de francos para comprar 100 Hawker Hunter britânicos.

O Hunter acabaria tornando-se uma das aeronaves mais longevas e importantes da Força Aérea Suíça, permanecendo em serviço até 1994. Mais tarde, a necessidade de um interceptador supersônico levaria a Suíça ao Dassault Mirage III, cuja aquisição seria aprovada no início da década de 1960.

O caminho escolhido indicava uma mudança importante. Em vez de assumir os elevados riscos financeiros e tecnológicos inerentes ao desenvolvimento independente de um caça moderno, Berna passou a depender de projetos estrangeiros, ainda que mantendo significativa participação industrial e modificações locais.

A FFA recusou-se a desistir

O cancelamento da encomenda governamental não encerrou imediatamente o P-16. A FFA decidiu prosseguir com recursos próprios e concluiu mais dois aparelhos aperfeiçoados, inicialmente conhecidos como J-3004 e J-3005 e posteriormente operados com registros civis.

O primeiro realizou seu voo inaugural em 1959 e o segundo em março de 1960. As modificações incluíram melhorias importantes nos sistemas hidráulicos, justamente para eliminar a vulnerabilidade que havia contribuído para a queda do J-3003.

Os cinco P-16 construídos realizaram, em conjunto, aproximadamente 508 voos e 233 horas de voo. O J-3002 sozinho completou 310 missões de teste, número considerável para um programa experimental dessa escala.

A FFA ainda estudou variantes de treinamento e versões mais potentes para exportação. Uma proposta posterior, conhecida como AJ-7, previa inclusive um motor General Electric J79, o mesmo tipo de turbojato utilizado pelo F-104 Starfighter, mas nenhum cliente apareceu.

O P-16 realmente deu origem ao Learjet?

O legado mais curioso do programa apareceu longe do campo de batalha. Depois do cancelamento suíço, o empresário e inventor norte-americano William “Bill” Lear interessou-se pelo projeto e estabeleceu contatos com engenheiros envolvidos no P-16. Esse episódio acabaria conectado ao desenvolvimento do primeiro Lear Jet.

Durante décadas, tornou-se comum afirmar que o Learjet 23 teria sido praticamente uma versão civil do caça suíço. A relação existiu, mas essa interpretação é excessivamente simplificada.

A Aviation International News observa que Bill Lear recebeu inspiração do P-16 e aproveitou conhecimentos adquiridos na Suíça, mas o Learjet não foi simplesmente derivado do caça. William P. Lear Jr., filho do fundador e participante daqueles acontecimentos, chegou a contestar explicitamente a ideia de uma descendência direta.

Entre as diferenças estavam a geometria das asas, a configuração da cauda e, naturalmente, a arquitetura geral da aeronave. Ainda assim, o contato com a equipe suíça e algumas das ideias associadas ao P-16 fizeram parte do ambiente técnico que levou à criação da Swiss American Aircraft Corporation e, posteriormente, do Learjet.

Assim, chamar o P-16 de “pai do Learjet” pode funcionar como uma simplificação histórica, mas é mais correto dizer que o caça suíço exerceu influência sobre o projeto que acabaria dando origem à famosa família de jatos executivos.

Um sobrevivente de uma ambição perdida

Dos cinco P-16 construídos, apenas um exemplar composto por componentes das últimas aeronaves sobreviveu. Ele está preservado no Flieger-Flab-Museum/Air Force Center, em Dübendorf, como um dos principais testemunhos da capacidade que a indústria suíça alcançou durante a primeira geração de aviões de combate a jato.

O significado histórico do P-16 vai além do fato de nunca ter entrado em serviço. A aeronave demonstrou que uma indústria relativamente pequena podia desenvolver um caça-bombardeiro moderno, otimizado para requisitos nacionais extremamente específicos e suficientemente promissor para receber uma encomenda de 100 unidades.

Seu desaparecimento também ilustra como programas de defesa raramente são decididos apenas por suas qualidades técnicas. Mudanças doutrinárias, disputas políticas, riscos industriais, acidentes e a disponibilidade de aeronaves estrangeiras podem pesar tanto quanto velocidade, alcance ou capacidade de armamento.

O P-16 chegou extraordinariamente perto de transformar a Suíça em um dos poucos países capazes de projetar e produzir seus próprios aviões de combate a jato. Em março de 1958, tudo indicava que isso aconteceria.

Seis dias depois da aprovação da compra, uma falha hidráulica e uma queda no Lago de Constança mudaram o curso da história da indústria aeronáutica militar suíça.

FFA P-16 Mk.III
Principais características do caça-bombardeiro desenvolvido pela Flug- und Fahrzeugwerke Altenrhein (FFA), da Suíça

CaracterísticaDados
Informações gerais
TipoCaça-bombardeiro / aeronave de ataque ao solo
País de origemSuíça
FabricanteFlug- und Fahrzeugwerke Altenrhein (FFA)
Tripulação1 piloto
Primeiro voo25 de abril de 1955
Exemplares construídos5
Encomenda planejada100 aeronaves para a Força Aérea Suíça — canceladas em 1958
Dimensões e pesos
Comprimento14,24 m
Envergadura11,14 m
Altura4,26 m
Área alar30 m²
Peso vazio7.040 kg
Carga máxima4.560 kg
Peso máximo de decolagem11.720 kg
Propulsão
Motor1 × turbojato Armstrong Siddeley Sapphire ASSa.7
Empuxo48,95 kN
Desempenho
Velocidade máxima1.115 km/h ao nível do mar
Teto de serviço14.500 m
Alcance em baixa altitude700 km
Alcance normal1.400 km
Alcance com tanques externos2.120 km com dois tanques suplementares
Operação em pistas curtas
Corrida de decolagem560 m, considerando aeródromo a aproximadamente 500 m de altitude
Corrida de pouso com paraquedas300 m
Corrida de pouso sem paraquedas420 m
Características STOLFlaps Krüger no bordo de ataque, grandes dispositivos hipersustentadores e paraquedas de frenagem; trem de pouso preparado para operação em pistas pouco preparadas
Armamento
Canhões internos2 × Hispano-Suiza H.S. 825 de 30 mm
Lançador interno de foguetes1 × Matra Type 1000 para 44 foguetes não guiados de 68 mm
Pontos externos4 suportes sob as asas
Armamentos externos previstosMísseis ar-ar e ar-superfície, bombas convencionais, foguetes e depósitos de napalm
Carga máxima de armamentos2.590 kg
Programa
SituaçãoPrograma cancelado; não entrou em serviço operacional
Destino da encomendaPedido de 100 aeronaves aprovado em 1958 e posteriormente cancelado após a perda de uma aeronave de pré-série

Notas técnicas:
Os dados de desempenho correspondem principalmente à configuração P-16 Mk.III, planejada para produção.
O P-16 foi concebido para operar a partir de aeródromos curtos e dispersos, incluindo pistas pouco preparadas.
Durante os ensaios, um dos protótipos ultrapassou a barreira do som em mergulho, mas a aeronave foi otimizada principalmente para ataque ao solo e operações em baixa altitude.

Fontes: Luftfahrtmuseum Hannover-Laatzen; Air Force Center / Flieger Flab Museum, Dübendorf; documentação histórica do programa FFA P-16.

FONTES: Air Force Center Dübendorf, Arquivos Federais Suíços, U.S. Army Command and General Staff College/DTIC, Luftfahrtmuseum Hannover, Aviation International News e documentação histórica sobre a Força Aérea Suíça.

sábado, 15 de agosto de 2026

FedEx apresenta Boeing 777F com pintura retrô para homenagear fundador


Boeing 777F recebeu esquema inspirado nos primeiros Falcon 20 da empresa em homenagem a Frederick W. Smith e à história da FedEx em Memphis.


A FedEx apresentou um Boeing 777F com uma pintura especial inspirada no visual utilizado pela empresa em seus primeiros anos de operação. A aeronave foi preparada como uma homenagem a Frederick W. Smith, fundador da companhia, e à história construída pela FedEx em Memphis, no Tennessee, cidade que abriga o principal hub da empresa.

O avião, registrado como N884FD e batizado de “Rosie”, recebeu elementos visuais que remetem diretamente aos Dassault Falcon 20 utilizados pela Federal Express quando iniciou suas operações em 1973. A aeronave participou das cerimônias que marcaram a mudança do nome do aeroporto de Memphis para Frederick W. Smith International Airport.

A escolha do Boeing 777F cria uma interessante ligação entre o passado e o presente da empresa. Quando começou a operar, a Federal Express possuía apenas 14 Falcon 20, pequenos jatos executivos adaptados para o transporte de cargas. Mais de cinco décadas depois, a companhia utiliza uma das maiores e mais avançadas frotas de cargueiros do mundo, tendo o 777F como um dos principais modelos empregados em suas rotas internacionais.

A Federal Express iniciou suas operações em 17 de abril de 1973, com 389 funcionários e 14 aeronaves. Na primeira noite, os aviões transportaram 186 encomendas entre 25 cidades norte-americanas. O modelo operacional criado por Smith, baseado em uma rede centralizada e voos noturnos, revolucionou o transporte expresso de pequenas encomendas.

A trajetória da empresa começou alguns anos antes, quando Smith desenvolveu durante seus estudos na Universidade Yale a ideia de criar uma rede especializada no transporte rápido de encomendas urgentes. O conceito previa a utilização de uma estrutura aérea capaz de concentrar cargas em um ponto central durante a noite e redistribuí-las rapidamente para diferentes destinos.

Memphis foi escolhida como centro da operação por sua localização estratégica e pelas condições favoráveis para operações aéreas durante o período noturno. A cidade acabou se tornando indissociável da identidade da FedEx e atualmente abriga um dos maiores hubs de carga aérea do planeta.

O Falcon 20 também representa uma parte importante dessa história. A Federal Express chegou a operar dezenas de exemplares do jato francês, que foram fundamentais durante a fase inicial de expansão da companhia. Um dos aviões históricos utilizados pela empresa está preservado no Steven F. Udvar-Hazy Center, do Smithsonian, nos Estados Unidos.

O Boeing 777F que agora exibe a pintura retrô representa o extremo oposto daquela primeira geração de cargueiros. O modelo possui capacidade para transportar mais de 100 toneladas de carga e apresenta alcance superior a 9.000 quilômetros, permitindo que a FedEx conecte importantes centros econômicos sem depender de numerosas escalas intermediárias.

O 777F também se tornou uma peça importante na modernização da frota da FedEx. A empresa vem substituindo progressivamente aeronaves mais antigas por cargueiros mais eficientes, buscando reduzir custos operacionais e consumo de combustível enquanto mantém elevada capacidade de transporte em suas principais rotas internacionais.

A companhia também planeja ampliar sua frota de 777F. Novas aeronaves deverão ser incorporadas ao longo dos próximos anos, enquanto modelos mais antigos, incluindo os veteranos MD-11, serão gradualmente retirados de serviço. A estratégia reflete a necessidade de modernizar uma das maiores frotas cargueiras do mundo.

A homenagem ganhou um significado especial após a morte de Frederick W. Smith, em junho de 2025, aos 80 anos. O empresário permaneceu como uma das figuras centrais da história da FedEx e foi responsável por transformar uma ideia acadêmica em uma empresa que modificou profundamente o setor de logística e transporte expresso.

A nova pintura do N884FD transforma um moderno Boeing 777F em uma espécie de cápsula do tempo. Embora o avião tenha capacidade e tecnologia muito superiores às dos Falcon 20 que deram origem à companhia, suas cores remetem diretamente aos primeiros anos da Federal Express.

A escolha do aeroporto de Memphis para receber oficialmente o nome de Frederick W. Smith reforça ainda mais essa conexão. A cidade foi fundamental para o crescimento da FedEx e continua sendo o centro de uma operação que movimenta enormes volumes de carga todos os dias.

Embraer acelera produção do KC-390 e mira fabricar 10 aeronaves por ano até 2030


Crescente demanda internacional pelo cargueiro brasileiro leva a Embraer a ampliar sua capacidade industrial e estudar linhas de montagem no exterior.


A Embraer prepara uma expansão significativa da produção do KC-390 Millennium para atender ao aumento da demanda global pela aeronave. A fabricante brasileira confirmou que pretende elevar gradualmente sua capacidade industrial até alcançar a fabricação de dez aeronaves por ano em 2030, praticamente dobrando o ritmo atual de produção.

O plano prevê a entrega de seis aeronaves em 2026, com aumento progressivo para sete unidades em 2027, oito em 2028, nove em 2029 e dez em 2030. A empresa já trabalha na ampliação de sua cadeia de fornecedores e na modernização dos processos industriais para garantir que o crescimento ocorra sem comprometer prazos e qualidade.

Segundo o presidente e CEO da Embraer, Francisco Gomes Neto, o cenário internacional impulsionou uma forte procura por aeronaves de transporte militar. O aumento dos investimentos em defesa, especialmente na Europa, aliado aos programas de modernização de diversas forças aéreas ao redor do mundo, criou um ambiente favorável para o KC-390 Millennium.

Nos últimos anos, a aeronave brasileira conquistou espaço em um mercado historicamente dominado pelo C-130 Hercules. Além da Força Aérea Brasileira, o KC-390 já foi adquirido por Portugal, Hungria, Países Baixos, Áustria, República Tcheca, Coreia do Sul, Suécia e Emirados Árabes Unidos. Outros países continuam avaliando a plataforma em campanhas de aquisição, incluindo Índia, Chile, Colômbia e Estados Unidos.

O crescimento da carteira de pedidos também faz a Embraer estudar alternativas para expandir sua capacidade produtiva além do Brasil. Caso contratos de grande porte sejam confirmados, especialmente nos mercados norte-americano ou indiano, a fabricante poderá estabelecer linhas de montagem locais para atender requisitos de conteúdo nacional e acelerar as entregas.

Embora a meta de dez aeronaves anuais ainda esteja distante dos volumes produzidos por grandes programas militares dos Estados Unidos, ela representa um avanço expressivo para uma aeronave dessa categoria. Cada KC-390 exige aproximadamente dois anos entre o início da fabricação e a entrega ao cliente, refletindo a elevada complexidade da cadeia de produção e integração de sistemas.

Desenvolvido para missões de transporte tático e logístico, o KC-390 Millennium combina elevada capacidade de carga, alta velocidade e múltiplas funções operacionais. A aeronave pode transportar até 26 toneladas, realizar lançamento de tropas e cargas, evacuação aeromédica, combate a incêndios, missões humanitárias e reabastecimento em voo, tanto como aeronave-tanque quanto recebendo combustível durante a missão.

Além da versatilidade operacional, o jato brasileiro se destaca pela elevada disponibilidade e pelos baixos custos de operação e manutenção. Exercícios internacionais e operações reais têm demonstrado sua capacidade de atuar em pistas semipreparadas e em cenários de alta intensidade, fatores que vêm aumentando sua competitividade frente aos principais concorrentes no mercado global.

Com novos clientes sendo incorporados ao programa e diversas negociações em andamento, a Embraer aposta que o KC-390 continuará ampliando sua presença internacional ao longo da próxima década, consolidando-se como um dos maiores sucessos da indústria aeronáutica brasileira no setor de defesa.